Crônica: o herói anônimo da pandemia

Apareceu um ciclista-entregador na capa da New Yorker de 13 de abril de 2020. É a publicação mais intelectualizada das revistas estadunidenses, a referência em crítica da cultura e do humor sofisticado. O pedalante da giga economia foi imortalizado em uma obra-prima do cartunismo gráfico contemporâneo.

O autor é Pascal Campion, desenhista com olhar atento que acolhe na tela em traços suavemente coloridos as gravuras do cotidiano de Nova York.

A cidade é um cenário perfeito para serem criados e perpetuados os heróis modernos por meio das mentes criativas dos produtores de estórias voltadas para captar a psiquê humana em meio às crises urbanas que provocam na sociedade uma angústia generalizada.

O título da obra é Lifeline, que pode ser traduzido por Linha da Vida.

Manhattan é o cenário senso-comum, clichê, que atende ao imaginário do consumidor desse tipo de estória. Multifacetada; é onde gente de todo o mundo vive. É rica, mas é pobre nas bordas e guetos.

O desenho mostra uma situação corriqueira, mas que tornou-se de repente relevante para quem usualmente considera que o tempo é dinheiro e não deve ser perdido com tarefinhas, como cozinhar ou comprar pasta de dente.

Para isso, têm-se as legiões de subempregados: ilegais imigrantes, afrodescendentes e outras minorias sociais e econômicas

É noite chuvosa no tela do pintor. As estão ruas desertas. No centro da pintura, um largo com prédios ao redor e uma bicicleta descansa no tronco de uma das duas árvores que disputam o espaço com o obelisco comemorativo. Em NY tem estátua em todo o canto.

Na linha de escape, uma rua que parte do largo a esgueirar-se pelos muros dos prédios até que encontra um horizonte quadriculado de janelas acesas e apagadas. Vê-se ao longe as janelinhas acesas lá no fundo. Escritórios? Talvez.

O personagem está no canto inferior direito e foi cuidadosamente iluminado. É um jovem com uma caixa térmica presa às costas. Poderia ser uma mochila de estudante.

Só ele brilha em cores na penumbra da garoa novaiorquina. Está embaixo da cobertura, um toldo, que defende a porta de entrada de um prédio. O artista capta o movimento do dedo indicador de quem vai tocar a campainha.

A revista resolveu colocar na capa o que o senso comum da metrópole mais rica do planeta acredita ser imprescindível para o momento obscuro. No conforto do lar, não precisam só dos materiais de primeira necessidade, mas também de emoções que satisfaçam a necessidade de terem uma pequena percepção de segurança.

Está isolada para evitar a proliferação de um vírus em uma jornada diária da humanidade está assolada em dúvidas, angústias e raivas onde o remédio para o desassossego busca esperanças naquilo que é mais ancestral; no acalento da existência de heróis que oferecem a própria vida para salvar a dos outros.

É um prato cheio para os meios de comunicação que criam personagens míticos para oferecer aos cérebros em conflito uma verdade que os permite deitar a cabeça no travesseiro à noite e dormir o justo sono da boa-aventurança.

O morador regular de Manhattan, Londres ou São Paulo precisa saber que lá fora, enfrentando o pânico provocado pelo vírus assassino existe um herói que saiu da condição de humano humilde, morador de algum lugar remoto, a brigar sem reservas para que outras pessoas menos inclinadas à atos de sacrifícios possam continuar existindo.

Durante a pandemia, o ciclista entregador está sendo elevado ao panteão dos semideuses em mesmo nível que enfermeiras e médicas. São a linha de frente da sobrevivência a livrar a cidade do mal e da insegurança. Eles matam a sua fome, buscam seus remédios, fazem sua a feira. Não fossem eles, você teria que enfrentar o vírus e colocar em risco a sua família.

Mas o romantismo que recai sobre jovens que enfrentam a solidão, o frio e chuva da cidade escura e vazia é só uma estratégia de editorial que visa oferecer um conforto existencial para quem foi alijado dos prazeres da vida e nada mais pode fazer do que esperar o toque da campanhia.

A realidade é outra

Esse herói tão aplaudido, no entanto, é como o soldado desconhecido, pois é anônimo, um número no banco de dados da empresa de tecnologia.

São tantos deles em face de uma condição provocada por desigualdades sociais milenares.

A moradora de Manhattan ou dos Jardins vai descer para pegar a encomenda e pode até expressar algum sentimento efêmero ao agradecer a presença do menino e chamá-lo de herói para cinco minutos depois, sequer lembrar da face dele ou esboçar qualquer tentativa de debruçar-se filosoficamente na luta de classe.

São eles peças em um mercado originados nos redutos de pobreza mais distantes e que certamente são heróis para si mesmos e das próprias famílias.

“O herói é alguém que deu a própria vida por algo maior que ele mesmo” afirma Joseph Campbell (1904-1987) durante a famosa entrevista a Bill Moyers, uma das maiores autoridades no campo da mitologia do século 20. Campbell estudou a fundo os mitos da humanidade e responde com simplicidade a pergunta do entrevistador sobre a incontável quantidade de histórias de heróis existentes na mitologia.

“Porque é sobre isso que vale a pena escrever”, responde com clareza e completa. “O herói é alguém que deu a própria vida por algo maior que ele mesmo”.

Com efeito, o ciclista entregador seria um daqueles heróis que chegaram nesse patamar devido à proeza física. São 70, 80, 100 quilômetros por dia, indo e voltando com pacotes às costas, mas sua motivação é oposta àquela daqueles que saem de noite a doar sopa para sem-teto.

A única motivação dos ciclistas entregadores para colocar-se em tal perigo é salvar a prórpia existência. Provavelmente nem pensam que estão a salvar uma vida ao entregar um remédio ou porção de comida. A única coisa que pensam é se haverá tempo para pegar mais uma entrega e se o telefone celular terá bateria suficiente para receber mais pedidos ou quanto tempo mais aguentará sem uma alimentação adequada.

Diferente do Indiana Jones, do Homem Aranha, do Superman, de Jasão ou Hércules, o ciclista não vai retornar para um cotidiano ameno e bucólico onde descansa após a batalha diária.

Regressará para as quebradas periféricas, favelas e condomínios populares, bem longe da área de entrega. Sai de uma luta para outra, para garantir no mínimo a ingestão de 2 mil calorias diárias e alguma dignidade humana.

*Crônica escrita em 9 de abril de 2020

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