O custo do hambúrguer temperado com carne humana e odor de gasolina

Crédito da foto: Rogério Viduedo

Não vou passar pano pra motoca que acha que os problemas dele são maiores do que dos outros e usa a motocicleta para colocar a vida das pessoas em risco com a desculpa que tem de desenrolar o serviço. Mas também não vou colocar a culpa nele, pois segundo o conceito de Visão Zero e Sistemas Seguros, a responsabilidade das tragédias de trânsito devem ser compartilhadas com aqueles que projetam e realizam a manutenção das vias, fabricam veículos e administram programas de segurança. É o que diz o PLANO GLOBAL Década de Ação pela Segurança no Trânsito 2021-2030 da ONU.

Por isso, pergunto a administradores do viário de Blumenau, bela cidade do grande Estado de Santa Catarina: – vocês acham que esse cruzamento na rua Antônio da Veiga, pode ser considerado sinalizado adequadamente? Quando será a última vez que recebeu atenção devida? Vocês poderiam ter evitado essa tragédia com a ciclista Karen, de 31 anos que aconteceu na manhã de 22 de fevereiro de 2022?

O vídeo é forte. Karen está esperando em pé, ao lado da bicicleta, que o semáforo feche o trânsito para carros e fique verde para ela. Uma pedestre caminha pela calçada indo na direção norte, carros e motos passam, vem e vão. É uma avenida larga, com duas faixas de cada sentido, sendo uma com veículos estacionados.

Karen foi pega de surpresa por motociclista infrator de trânsito

Percebe-se o farol fechar, pois do outro lado os carros respeitando a faixa de pedestres. A ciclista monta a bicicleta e olha para um lado; olha para o outro. Certifica-se que pode cruzar. Ela apoia o pé esquerdo no pedal dá um impulso com o pé direito para pôr-se em movimento.

Um milésimo depois ela é violentamente abalroada por uma motocicleta que fura o sinal vermelho em velocidade incompatível. O impacto joga Karen para o alto. A pedestre para e coloca as mãos na cabeça; encosta no muro. Vê-se pedaços da moto se arrastarem.

Me arrisco dizer que o motociclista estava acima de 50 quilômetros por hora e não esperava alguém passando pela faixa de pedestres ali naquele exato momento, como se conhecesse bem o local.

Brasileiro é assim com veículos. Confia demais; acha que domina todas as variáveis do movimento de carros e das pessoas. Acabou sendo surpreendido pela falta de experiência. De longe, talvez tenha visto Karem, mas não a bicicleta. Ou não viu foi nada mesmo. Total imprudência, realçada por uma (falta de) sinalização que é um escárnio.

Karen está no hospital agora. Múltiplas fraturas, talvez hemorragias. Sua amiga, Kelly, pede doação de sangue.

Uma grande tragédia diária

É o tipo de comportamento que tenho observado de motociclistas de entregas pelo bairro onde moro. Aqui no enclave da Vila São Francisco, situada entre os distritos do Rio Pequeno e Jaguaré com a cidade vizinha de Osasco, a rapaziada que atende restaurantes e consumidores da região se acha indestrutível. Fazer o “bololô“, é usual, um barulho tipo rantantan! que se escuta de longe, uma vez que muitas das motos não têm mais o silenciador no escapamento.

O abuso da alta velocidade, então, é gritante e fica ainda pior quando fazem uso de atalhos inaceitáveis, ao cortar caminho em áreas de pedestres, nas ciclofaixas e nas contramãos. Tem uns e outros que chegam ao disparate de embicar naquele vão entre a lombada que existe para reduzir velocidade e a guia da calçada, por onde só passaria a água da chuva. É comum ver motocas batendo o apoio dos pés no concreto em uma manobra que me remete ao impetuoso marinheiro Guma que leva seu veleiro por entre os arrecifes de Mar Grande para vencer a corrida contra o velho Rufino, marinheiro mais velho e experiente. A vida no trânsito para esses jovens de periferia tem a mesma aventura e sofrimento que a das personagens do premiado romance de Jorge Amado, Mar Morto.

O hambúrguer que esses jovens entregam deve ter gosto de gasolina misturada com carne humana. E tem incentivo das empresas de aplicativo, que também precisam fazer parte da solução para acabar com essa epidemia de ocorrências de trânsito com motos, principalmente depois que passaram a garantir para clientes que a refeição pedida pelo celular vai chegar em até quinze minutos. Como é possível tornar isso realidade sem motivar a imprudência?

Em Nova York, por sua vez, um vereador propôs uma lei para proibir esse tipo de propaganda. Entendeu que os Uber, Ifood e Rappi da vida estimulam ameaças à segurança viária ao induzir entregas em no máximo um quarto de hora. Ao mesmo tempo, pretende por um limite de peso que os “deliveristas” carregam nas mochilas pregadas às costas.

Durante esses últimos três anos, fiz muita pesquisa sobre sinistros com motociclistas na Capital de São Paulo, muito por causa da Pandemia de Covid-19 que abriu um espaço absurdo nas avenidas livres de carros para esmerilhar à vontade.

Um levantamento que fiz no Infosiga mostrou que as motos são agora são as principais algozes de ciclistas. Em 2021, foram 1098 ocorrências não fatais contra ciclistas. Já os automóveis responderam por 1079 casos. Nos dois anos anteriores, aconteceu o inverso. Os carros causaram mais sinistros em ciclistas em 2020 (995 x 929) e em 2019 (876 x 822).

Nessa última semana, pelo menos quatro das maiores emissoras de TV produziram reportagens sobre as três mortes de ciclistas provocadas por motoristas embriagados que ocorreram em pouco espaço de tempo na Grande São Paulo.

Elas só reforçam a sensação que a violência do trânsito não está sendo bem combatida por quem deveria pois em nenhuma delas um prefeito ou secretário apareceram para comentar. Preferiram se esconder atrás das notas de imprensa, “Fizemos ciclovias, vamos fazer mais”, se desculpam.

Fica difícil assim convencer às mães que os filhos e filhas podem pedalar em segurança na Capital e optar por um transporte mais sustentável e menos poluente.

Aos parentes e amigues de quem morreu no trânsito, minhas respeitosas condolências.

RV

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