O trânsito paulistano já matou 10 ciclistas, 80 motociclistas e 59 pedestres só neste ano

No que ficou conhecido como o “Escândalo das Parabólicas” de 1994, o ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Rubens Ricupero, admitiu ao vivo para milhões de televisores ligados no sinal de satélite usado pela TV Globo em Brasília, que em relação à transparência na divulgação de dados da economia ele não tinha escrúpulos.

“O que é ruim a gente esconde, o que é bom a gente mostra”, admitiu o economista em conversa informal com o jornalista Carlos Monforte. Naquela época, todo mundo estava ligado nos índices inflacionários do IBGE, já que o Plano Real era recém-nascido e, do sucesso dele, dependia a eleição do senador Fernando Henrique Cardoso para presidente da República.

Por conta do vazamento da opinião, Ricupero foi demitido, Ciro Gomes entrou no lugar dele até que o presidente FHC, vencedor da eleição no primeiro turno, colocasse na cadeira da economia o Pedro Malan em janeiro de 1995.

A vida seguiu e toda vez que leio um press release de governo sobre “acidentes de trânsito” ou outros resultados que mostram cidadãos morrendo ou se ferindo, me lembro desse episódio. É o caso da comunicação do Detran de São Paulo sobre os óbitos provocados no trânsito paulista. Semana passada, resolveram repercutir os dados atualizados até março deste ano e, para dar aquele verniz positivo, resolveram destacar números trimestre.

Pescaram uma queda de 13% nos óbitos de ciclistas, queda de 82 para 71 no primeiro trimestre.

Não satisfeitos, trouxeram o recorte para a Região Metropolitana de São Paulo e destacaram a queda de 25% dentro da mesma base, que apontou uma redução de 68 para 58 mortes. Como no jornalismo a gente tem que pegar todos os ângulos, baixei a planilha e fui atrás das mortes de motociclistas e de pedestres.

Batata: no primeiro trimestre de 2020, houve aumento de óbitos de motociclistas na Região Metropolitana, subindo de 161 para 166. Já os óbitos de pedestres apresentaram mesmo número; 109 mortes para ambos os períodos.

A tendência de queda nos óbitos de ciclistas também é percebida no âmbito da cidade de São Paulo. Eu inseri os dados numa planilha do Flourish para ilustrar melhor. Nesse comparativo dos primeiros trimestres, foram 13 ciclistas em 2022 contra 10 neste ano e que deveriam ser onze, pois o óbito do ciclista entregador Claudinei Kauã, que aconteceu em fevereiro na avenida Corifeu de Azevedo Marques, foi registrada como atropelamento de pedestre.

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Para quem se pergunta de onde vêm os dados, eles são colhidos dos boletins de ocorrência. Quem compila as informações vai se ater ao que foi escrito pelo escrivão e lavrado pelo delegado de polícia.

Uma situação similar eu constatei com o registro da ocorrência do ciclista Joab Xavier, atropelado em outubro de 2020 por um ônibus não identificado quando pedalava para o trabalho na avenida Jacu-Pêssego, bairro de São Mateus, na zona leste. O BO também o colocou como pedestre.

O que não dá para confundir é a morte de motociclistas. E essa tem aumentando, principalmente na Capital. Ainda que o Ricardo Teixeira, atual secretário de mobilidade e trânsito do prefeito Ricardo Nunes venha dizer irá replicar em outras vias o “sucesso” da faixa azul criada na 23 de Maio, criada para tentar diminuir as ocorrências com motos naquela avenida, o discurso não será suficiente para minimizar o fato de que neste primeiro trimestre os óbitos de motociclistas aumentaram 4%, subindo de 77 para 80.

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