Cadê as ciclovias no Lego? Proposta de ciclista fã do brinquedo está em votação e tem chance real de vencer

Em 2019, o holandês Marcel Steeman brincava de Lego com os filhos e notou algo estranho. “Há ciclistas no Lego, mas eu me perguntei onde eles poderiam pedalar”, disse ele ao jornal local DutchNews.nl. “Se você é holandês, está acostumado a ter ciclovias”, pontuou. “Mas se procurar alguma ciclovia ou outra infraestrutura para bicicletas, não vai encontrar”, atestou.

Steeman é um fã do Lego e ativista pela segurança viária, resolveu agir. Com a ajuda do professor de planejamento urbano da Universidade de Amsterdã, Marco te Brommelstroet, registrou no website Ideias da LEGO uma proposta de conjunto intitulada, “Ciclovias”, e enviou dois desenhos com ruas contemplando infraestrutura para ciclistas. A proposta, porém, foi rejeitada pela Lego por não atender a certas condições globais em relação à padronização de trânsito. Por exemplo: enquanto na Holanda as ciclovias são vermelhas, nos EUA, Austrália, ou Dinamarca, o padrão delas é azul.

Para Steeman, a negativa não foi suficiente para interromper seu desejo de tornar as cidades LEGO mais amigáveis para quem pedala. Ele entende que elas devem refletir um ambiente no qual as ruas priorizam a circulação de pedestres e ciclistas e dessa forma influenciem diretamente a compreensão de uma criança sobre o ambiente em que vivem. Em entrevista ao The Verge, ele defende que a Lego está em posição única de influenciar o entendimento do senso comum de que ruas precisam ser mais seguras e ecologicamente corretas.

Steeman no Twetter: “Ajude-me a tornar uma das maiores cidades do mundo acessível aos ciclistas. Com votos suficientes, em breve será possível pedalar com segurança na Lego City e uma nova geração crescerá com espaço para bicicletas. Apoie minha ideia no Lego Ideas.

O prefessor Marco (no Twitter @fietsprofessor) também não se deu por vencido e passou a usar a rede social onde têm mais de 50 mil seguidores para sugerir e pedir explicações para a Lego. Foram muitas negativas ou respostas evasivas, mas o projeto foi ganhando corpo e a atenção de outros apaixonados por Lego ou por bicicletas e gerando um pressão na empresa de brinquedos dinamarquesa.

A dupla passou a pesquisar a história da Lego para saber se em algum momento ela já havia criado alguma cidade ou bairro com ciclovias. Descobriram que nos anos 1980 e 1990 haviam sido produzidas algumas bases inteiriças (onde as peças são encaixadas) com ciclovias estreitas na cor verde. Mas foram poucas. Nos anos seguintes, perceberam que a largura em pinos destinada aos carros aumentava. Primeiro eram quatro pinos, depois seis, até chegar nos oito, uma consequência do mundo real totalmente adepto ao conceito do carrocentrismo. A maioria das cidades Lego são semelhantes às ruas do mundo real: totalmente voltadas para carros, motocicletas e outros automotores.

Greenpeace pegou pesado para atribuir à Lego uma parte da responsabilidade pelas operações de extração de petróleo da Shell no Oceano Ártico

Também trouxeram à tona um relacionamento que a Lego tinha com a Shell desde 1966 e que se transformou em acordo comercial em 2011, com a produção de conjuntos com a marca da petroleira holandesa. São fartos os conjuntos que trazem postos de gasolina e tudo relacionado à cultura do automóvel e da velocidade.

A parceria, entretanto, foi encerrada em 2014 depois que o Greenpeace lançou um vídeo em que a Lego figurava como corresponsável pelos efeitos nocivos ao meio ambiente provocados pela perfuração de poços de petróleo nas águas do Ártico. O vídeo usa bonecos e ambientes Lego para encenar um vazamento de óleo que atinge da região. . A mensagem diz que a Shell polui a imaginação das crianças e pede que a sociedade pressione a empresa a encerrar a parceria.

Brinquedo tem força para influenciar novas gerações

Um pouco antes de estourar a pandemia da Covid-19 no final de 2019, Steeman percebeu um movimento da Lego que poderia resultar em mais espaço para ciclistas no brinquedo. A Lego havia alterado a forma de apresentar as ruas, trocando os as bases inteiriças por conjuntos ajustáveis com tijolos reais. A partir disso, a composição das ruas no Lego passou a ser modular, tal como os blocos edificáveis. Surgiram então os conjuntos, o # 60304 (módulos para ruas) e o #60306 (ruas comerciais).

O primeiro permite montar uma intersecção viária de uma rua normal e traz semáforos, faixa de pedestre elevada e sinalização de velocidade para automóveis em 30 quilômetros por hora. Já os segundo retrata uma rua com lojas, uma estreita ciclovia e uma bicicleta de carga. Porém, Steeman percebeu que ainda faltavam elementos para considerar a incorporação das bicicletas de forma aceitável para ele. A faixa de ciclovia da rua comercial não tem largura necessária para que a bicicleta cargueira trafegue com folga.

Ele gerou uma nova representação de sua ideia de ciclovias usando as novas placas de estrada como base, mas dessa vez preferiu a cor azul, para não ter erro. E elas devem ser largas e compridas para abrigar outras peças, como bicicletas com cadeiras de crianças, cargo bikes, paraciclos em U invertido, travas para prender bikes, cestas de compras, bombas de ar e ferramentas para simular um reparo rotineiro.

A proposta não demorou mais que um dia para ser aprovada, mas para chegar a ser produzida e comercializada a estrada é longa. Desde que foi criado, o Ideias Lego só acatou aproximadamente 30 das milhares de ideias enviadas por fãs. Para ser produzido, ela precisa de popularidade e um processo de votação é aberto,

No caso da Bike Lane, a Lego concedeu a Steeman 60 dias para atingir 100 votos, o que ele conseguiu em quatro horas. Ganhou assim mais 365 para chegar a 1000, meta batida em poucos dias. Com isso, ganhou mais 182 para chegar aos cinco mil e atualmente ele tem 4401 votos. Chegando nesse volume terá ao todo 565 dias para atingir os 10 mil votos e passar para a fase de revisão por especialistas da empresa e assim ter a ideia aprovada.

Qualquer pessoa pode votar. Basta se cadastrar no site da Lego Ideias e votar no projeto Bike Lanes, “a próxima etapa em mobilidade”. Indique aos amigues para que essa conquista seja real e o brinquedo contribua para que as futuras gerações entendam a necessidade das ruas serem construídas para pessoas e não para carros.

Proposta de Steeman para ciclovia tem até ferramentas para conserto de bicicletas.

Imagens capturadas do Lego

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