mudanças climáticas

Cinco razões pelas quais a reversão nos padrões de economia de combustíveis nos EUA é terrível

Artigo do StreetsBlog mostra que existe ação mais escandalosa do que relaxar os padrões cruciais para as mudanças climáticas: usar os impactos econômicos do COVID-19 como cobertura política para isso. Foto Roque de Sá/Agência Senado

Por Kea Wilson – Do Streetsblog USA

O governo Donald Trump está explorando as preocupações econômicas relacionadas aos efeitos do COVID-19 bem como os medos sobre a violência no trânsito para justificar a recente decisão de reduzir os padrões de consumo de combustíveis por automóveis da era Obama – mas os defensores dizem que seus argumentos, na melhor das hipóteses, são vagos e, na pior, deliberadamente enganosos.

Trump anunciou na quarta-feira passada que vai revogar a legislação da era Obama. Ela exigia dos fabricantes de automóveis um aumento anual de 5% no rigor dos padrões de consumo de gasolina por automóveis entre 2020 e 2026, de forma que a maioria dos carros trafegando nas ruas possam ter autonomia de aproximadamente 34 quilômetros por litro de gasolina no meio desta década – um movimento que os ativistas ambientais dizem ser crucial para salvaguardar nosso futuro global. Mas, após uma revisão de dois anos, a agência americana decidiu que os padrões de redução originais simplesmente não eram viáveis ​​e, portanto, resolveu que a melhoria na eficiência será de apenas 1,5% ao ano.

O momento não faz sentido, uma vez que as montadoras já estão no caminho para alcançar os padrões da era Obama.

“Impedir de forma severa essas melhorias graduais anos antes de todos os benefícios a serem obtidos com a totalidade dos padrões pode fazer com que indústria automobilística americana retorne para o tempo em que os pátios estavam lotados de veículos encalhados por volta do final dos anos 2000″, disse Jack Gillis, diretor executivo da Federação dos Consumidores da América. “Isso permitiu que as montadoras estrangeiras, que produzem veículos de baixo consumo, passassem a liderar as vendas, enquanto os contribuintes precisavam socorrer as finanças das montadoras dos Estados Unidos.”

A simples viabilidade não é a única razão pela qual a equipe de Trump acredita ser necessário um relaxamento nas regras de economia de combustível. Há outros argumentos que causam perplexidade.

Em um recente vídeo promocional, a Administração Nacional de Segurança do Trânsito nas Rodovias – NHTSA – afirmou que permitir que as montadoras poluam mais irá beneficiar o meio ambiente, já que mais americanos irão troar carros velhos por novos, que são um pouco mais econômicos. A agência também argumenta que as novas regras ajudarão a conter a crise de violência viária (mortes) bem como a fortalecer a economia.

Novas regras para redução de consumo de combustíveis pode ser um embuste

O único problema? Especialistas acham que nenhuma dessas projeções provavelmente é verdadeira. Aqui está uma lista rápida da provável lógica da agência – e por que os ativistas estão rejeitando.

NHTSA: Cortar os padrões de economia de combustível economizará dinheiro dos americanos na concessionária.

Ativistas: Provavelmente não – eles pagarão tudo de volta e muito mais na bomba de qualquer maneira.

Impor  à indústria automobilística regulamentos ambientais mais severos custa algum dinheiro. De acordo com a NHTSA, aderir à regra dos 5% de Obama custaria às montadoras estadonidenses 100 bilhões de dólares adicionais em custos regulatórios “até o ano modelo de 2029”, quando comparados aos padrões mais suaves, de apenas 1,5%. Esses custos, é claro, seriam repassados ​​ao consumidor – e se a matemática da agência estiver correta, o preço médio do carro novo e limpo custaria cerca de 1.400 dólares a mais do que um modelo com níveis de emissão de poluentes mais altos

Existem alguns problemas com essa lógica. Por um lado, não há muitas evidências de que a economia de 1.400 seja suficiente para estimular um comprador americano de automóveis a ir para a concessionária em vez de se manter fiel ao veículo antigo. O preço médio de um carro novo comprado nos EUA vem subindo há anos, mas os especialistas acham que não é porque as montadoras estão sendo forçadas a aumentar os preços para consumidores que não desejam; eles acham que é porque os americanos simplesmente escolhem veículos mais caros do que os mais baratos porque a popularidade dos grandes utilitários esportivos (SUV) e das pick-ups aumentaram nos últimos anos. (Os níveis crescentes de violência no trânsito nos EUA combinados com a percepção de que carros grandes mantêm os motoristas mais seguros em acidentes podem ter algo a ver com isso.)

Mas digamos que todo estadonidense repentinamente mude o sentimento em relação aos carros híbridos e opte pelo carro mais barato que ele ou ela podem obter. A preferência pessoal por veículos e os padrões de economia de combustível estarão condenados. Os analistas alegam que provavelmente perderemos todas essas economias obtidas nas revendas de carros – e mais – ainda haverá aumento de custos na bomba de gasolina.

“O relaxamento do governo Trump custará caro aos consumidores nos próximos anos”, escreveu Jeff Plungis, em uma análise da Consumer Reports sobre as novas regras. “Segundo o plano, espera-se que os consumidores gastem uma média de cerca de 3.200 dólares a mais em combustível por veículo durante a vida útil de seus veículos. Cumulativamente, todos os consumidores americanos somariam uma perda 300 bilhões de dólares, mesmo depois de considerar os preços de veículos novos potencialmente mais baixos, segundo a análise.”

E sim: essa análise está levando em consideração uma queda nos preços da gasolina na sequência do COVID-19, porque eles devem voltar aos patamares normais no momento em que as novas regras entrarem em vigor.

NHTSA: Os americanos comprarão mais carros novos se reduzirmos os padrões de economia de combustível.

Ativistas: não há evidências disso, especialmente durante uma recessão.

Há muito tempo o aumento na produção de carros é vendido à população como um potencial impulso para uma economia em dificuldades – e a NHTSA está canalizando essa mensagem em sua publicidade. A agência estima que os americanos comprarão mais 2,9 milhões de carros novos entre hoje e 2029 se nos livrarmos de alguns desses custos regulatórios incômodos – e, embora as reversões estejam em andamento há anos, esse argumento pode parecer ainda mais relevante em um momento de turbulência econômica.

Mas a idéia de que os americanos comprem carros novos para substituir os antigos se os preços na concessionária caírem pode ser uma ilusão. As vendas de veículos usados sobrepuseram-se sistematicamente às vendas de veículos novos por anos, apesar da flutuação dos preços de mercado, e a demanda por veículos novos permaneceu relativamente estável por quase uma década.

A única flutuação na demanda por novos veículos ocorreu nos anos que se seguiram à recessão global de 2008 e 2009 – quando, é claro, as vendas de novos veículos afundaram e não aumentaram. Todas as vendas de automóveis caíram para as mínimas históricas após a crise financeira e não atingiram novamente os níveis pré-recessão até 2015. Não saberemos por algum tempo como a crise do COVID-19 afetará as vendas de automóveis, mas sabemos isso: milhões de americanos desempregados certamente não estão comprando carros no momento – e, à medida que os efeitos em cascata do COVID-19 se desenrolam, ninguém espera que os estoques das concessionárias fiquem lotados em breve.

Na ausência de um programa sério de troca de carros velhos por novos – que a NHTSA, deve-se salientar, não está sugerindo – há uma boa chance de que milhões de americanos pulem os modelos mais recentes e continuem comprando os usados ​​como costumam fazer há décadas. Sim, à medida que o estoque de veículos nacionais envelhece, alguns desses carros usados ​​seriam um pouco mais eficientes em termos de combustível de acordo com as reversões propostas por Trump, mas não o suficiente para conter a mudança climática.

NHTSA: Carros mais novos são mais seguros – tornando mais barato para os americanos comprá-los, salvando vidas!

Ativistas: Legal, mas com quantas vidas estamos falando – e de quem?

Houve incríveis avanços na tecnologia de veículos na última década que salvaram inúmeras vidas de motoristas. Mas enquanto as estatísticas como a taxa de capotamentos de SUVs caíram, as taxas de mortalidade de pedestres e ciclistas dispararam – e esses fatos estão absolutamente relacionados, uma vez que as melhorias de segurança que estão salvando os motoristas (aumentar tamanho do carros, promover a blindagem e diminuir a probabilidade de capotamento em caso de impacto) são as mesmas melhorias que matam pedestres e ciclistas.

A NHTSA estima que haverá 3.330 mortes e 397.000 lesões a menos nos próximos nove anos em face das novas diretrizes (isso representa apenas uma queda de 0,9% em relação à base de 2009-2018). Mas, mesmo esses números pateticamente pequenos podem conter algumas suposições frágeis: de que mais pessoas irão realmente compram carros novos se os preços caírem (veja acima), que esses recursos de segurança salvariam muitas vidas (análises anteriores da NHTSA colocaram a redução da mortalidade próximo de 700 pessoas ); e que aumentos de poluição atmosférica de carros com menor consumo de combustível não matariam mais pessoas do que pouparíamos em colisões (a mesma análise disse que provavelmente matariam).

E isso antes mesmo de chegarmos ao fato de que, mesmo que o pensamento positivo da NHTSA se tornasse realidade, provavelmente estaríamos trocando mortes de motoristas por mortes de pedestres – e mortes por mudanças climáticas.

NHTSA: Se reduzirmos os padrões de eficiência de combustível e tornarmos os carros mais baratos, substituiremos uma tonelada a mais de carros antigos que consomem gasolina por novos carros – e isso pode ser melhor a longo prazo do que ter altos padrões de consumo de combustível em veículos novos caros. pode dar ao luxo de comprar!

Ativistas: oi?

A essência da lógica desses especialistas parece ser a seguinte: carros caros e com baixo consumo de combustível são bons para o planeta apenas se as pessoas realmente os comprarem e aposentarem os modelos mais antigos e super poluentes ao mesmo tempo … de modo que as montadoras não precisem tornar seus carros mais econômicos em termos de combustível.

Na verdade, o governo Trump está argumentando que, como carros mais baratos com pior economia de combustível podem atrair mais compradores, não devemos exigir que as montadoras desenvolvam carros altamente eficientes em termos de combustível, pois eles não serão comprados. O planeta ficará melhor, segundo o pensamento, se colocarmos carros mais limpos – não tão limpos, lembre-se, mas pelo menos mais limpos – ao alcance financeiro de mais americanos.

Se você está coçando a cabeça, não é o único. Até o próprio vídeo da NHTSA reconhece que, de acordo com o plano proposto, a eficiência de combustível de um carro médio na estrada seria de 18,7 quilômetros por litros  – enquanto, segundo os padrões da era Obama, seria de 19,5 km/l Talvez a agência esteja apontando desajeitadamente que nenhuma das políticas da administração alcança a eficiência média de combustível de veículos de 34 km/h, objetivo defendido pelos ativistas para reduzirmos os efeitos das mudanças climáticas, portanto, um mínimo de 27 km por litro é … próximo o suficiente? Os números da NHTSA são vagos aqui.

Evidente: se quisermos parar a mudança climática, precisamos fazer tudo o que pudermos para obter aumentar máximo que der e o mais rápido possível a eficiência média de combustível de todos os carros, além de uma adoção generalizada para veículos que não precisam de gasolina, como bicicletas, e uma diminuição nas taxas de emissões de carbono por viajante, colocando mais pessoas em transporte público. O transporte é a fonte número um de emissões causadoras de mudanças climáticas nos EUA – e simplesmente não podemos nos dar ao luxo de retardar qualquer progresso na limpeza do setor.

NHTSA: Milhões de mais americanos voltarão ao trabalho se vendermos mais carros novos!

Ativistas: Não se o resto do mundo se recusar a comprar nossos veículos sujos.

Muitos presidentes acreditam que a fabricação de carros é a resposta para diminuir o desemprego, mas não é. Por enquanto, vamos nos concentrar apenas em uma razão óbvia para essa reversão na política de economia de combustível de Trump na indução de empregos: é porque as montadoras americanas vendem em um mercado global e quase todos os governos do mundo inteiro acham que a retomada de uma economia atrelada ao combustível é perigoso. Como resultado, não haverá um mercado externo muito bom para carros americanos, mais sujos e menos eficientes – e isso significa que esses “bons” trabalhos nas fábricas de automóveis podem desaparecer facilmente.

A fabricante de automóveis americana General Motors na verdade vende mais carros na China do que nos Estados Unidos, aparentemente devido ao caso de amor do povo chinês com o Buick. A América do Norte é o mercado líder da Chevrolet, mas os EUA representam apenas 36,9% do total de vendas da empresa; o restante dos carros é comprado internacionalmente, com uma concentração particularmente grande de compras no Brasil, onde a Chevy possui uma grande fábrica. (Não devemos lembrar a ninguém que as montadoras americanas não fabricam todos os seus carros na América. Além disso, as quedas nas vendas prejudicam absolutamente os trabalhadores em Detroit, uma vez que trabalhadores em mercados domésticos caros costumam ser os primeiros a serem cortados quando as empresas cortam custos.)

A Ford, de longe, é uma das montadoras americanas que menos depende das vendas externas, mas isso não é necessariamente uma coisa boa; o valor das ações da empresa em bolsa caíram 70% nas últimas duas décadas e analistas de mercado especulam que a empresa está em declínio por causa de sua falha em conquistar o mercado externo.

“Tragicamente, bons empregos na indústria em todo o país estarão em risco com essa reversão”, diz Gillis. “Os empregos Detroit serão perdidos novamente caso às indústrias americanas cedam participação de mercado as empresas de automóveis estrangeiras que estão melhor equipadas para atender à crescente demanda global por carros que tenha consumo de combustível mais eficientes. E com a pandemia de coronavírus e o aumento associado ao desemprego, a decisão de Trump só piora as coisas.”

Temos todos os motivos do mundo para resistir às reviravoltas de Trump – especialmente neste momento econômico incerto. Mas, mesmo se não estivéssemos no meio de uma pandemia, precisamos reagir para defendermos nosso planeta.

Tradução de Rogério Viduedo

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