A interrupção do envio de petróleo venezuelano para Cuba desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos em janeiro deste ano tem motivado o retorno de habitantes da ilha ao uso de bicicletas. Uma reportagem da Reuters em jornais mexicanos revelou que o projeto Citykleta, que ensina pessoas adultas a pedalar como as Bike Anjas do Brasil, percebeu uma explosão no número de inscritos, a mesma percepção relatada pelo dono de uma bicicletaria, que avisa já não ter mais determinadas peças de reposição devido a alta procura por pessoas que decidiram driblar a paralisação do transporte público cubano botando as bicis para rodar novamente. Além disso, como o povo cubano precisa sempre se reinventar, a reportagem fala de uma turma de ciclistas em Havana que adaptaram painéis solares como fonte para recarregar baterias de bicicletas elétricas.
Sem qualquer romantismo, eu não fico nada alegre em ver essa situação e não me dá prazer de dizer que essa é uma situação que pode ser explorada pelo mercado da bicicleta ou da inovação, pois seria cômodo dizer que a gente já avisou faz tempo que a ditadura do automóvel resulta nessa dependência do uso de motores para se locomover e que no nosso caso de ciclistas talvez sejamos menos afetadas, mas não é bem assim que funciona. Principalmente pelo fato que muita gente, aqui ou no Caribe, entende que andar de bicicleta é coisa de pobre e que nunca usaria uma na vida, ou que o transporte público não é eficaz para suas necessidades, ou que o clima é muito quente – ou muito frio e úmido, seco também. Ou que é perigoso e desconfortável e onde mora é muito íngreme e toda a sorte de recusas certamente bem fundamentadas por quem é contra e nós que pedalamos sabemos que ser usuário de bicicleta requer certa preparação não exigida por quem vai de carro.
O fato é que os cubanos, mais pela dor e menos pelo amor, têm o país é subjugado pela mãos sujas de Donald Trump e sofrem punição coletiva e não têm combustível para ônibus nem para barcos ou aviões e agora sacam suas bicis empoeiradas debaixo das camas e dos fundos dos quintais e buscam pedalar ainda que sob sol ou sob chuva para conseguir manter uma rotina de levar filhos à escola e ir trabalhar e levar mercadorias, terão que ir à pé mesmo, pois no curto prazo é única alternativa que possuem já que o tempo das filas para abastecer de gasolina e óleo diesel demoram dois dias e os preços que já tinham triplicado antes da guerra iniciada pelo consórcio EUA-Israel contra o Irã agora já estimam quintuplicar com o barril do óleo que já está nos 100 e deve chegar a 150 dólares caso a república islâmica ainda consiga controlar o águas do Estreito de Ormuz, local por onde passam 20% da produção mundial e os imperialistas não cedam na sua ganância e mantenham mais esse cerco desumano, pois punir povos para mudar a política é pura crueldade..
Mas não é a primeira vez que cubanos e cubanas recorrem às pedaladas para dar um grau nos problemas econômicos. A partir de 1990, quando a União Soviética se esfarelou e com ela a cooperação econômica que proporcionou tempos de fartura nessa terra de furacões, o saudoso presidente-comandante Fidel Castro articulou a importação de um milhão de bicicletas fabricadas da China, o que transformou a vida nas cidades do país. Mas o tempo passou, Hugo Chavez fez a revolução bolivariana e a então pujante petrolífera venezuelana PDVSA tornou o país muito rico com a entrada na OPEP e passou a abastecer Cuba com o carinho que se faria com a pessoa mais amada mas que nesse agrado motivou muita gente a deixar a bici pelo conforto do carro e estamos onde estamos e torcendo para que as guerras cessem e as pessoas pedalem por ser suave e não o contrário.
Foto de abertura: mulheres aprendem pedalar em Havana. Crédito – Muhammed do Citykleta no Facebook
Descubra mais sobre Jornal Bicicleta
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
