O sistema de corrente e coroas usado nas bicicletas para transferir a energia das pernas ou mãos para as rodas é tão revolucionário que pode servir a atividades muito além das necessidades das pessoas se deslocarem nas cidades. Essa curiosidade científica me fez buscar os melhores exemplos de uso da magrela para servir como usina de eletricidade, mecanismo para liquidificador, palco de teatro e ferramenta pedagógica para a sustentabilidade do planeta.
O exemplo mais emblemático é o uso da como geradora de eletricidade. O Pedal Sustentável, fundado em 2008, transformou a energia humana em fonte de eletricidade capaz de alimentar equipamentos em shows, eventos corporativos e experiências interativas em que o público precisa pedalar bicicletas estacionárias para abastecer os equipamentos musicais da Banda CO2 Zero, Bloco do Pedal e da competição Bikerama, um autorama em pista de nove metros que alinha quatro carrinhos ligados às bicicletas dos competidores.
A gênese ocorreu em 2008 para atender uma necessidade pedagógica no Senai de Santa Bárbara d’Oeste (SP). O engenheiro eletricista José Carlos Armelin, precursor da iniciativa, era professor no curso técnico de mecatrônica e precisou levar aos alunos um conteúdo sobre energia renovável e transição energética, assuntos ainda pouco explorados e nada atrativo para adolescentes daquela época.

“Eu adaptei um gerador elétrico e um rádio numa bicicleta e entrei na sala de aula pedalando e tocando música. Aquilo fez com que todos os alunos começassem a olhar para aquela bicicleta e a escutar esse assunto sobre sustentabilidade”, diz Armelin relembrando o início da Banda CO2 Zero, que nasceu naquela mesma época e foi o embrião da empresa que tem como sócia a cantora e produtora cultural Filó Silva (na foto da abertura, com a Banda CO2 Zero).
Já a tecnologia empregada evoluiu ao longo dos anos e possui bicicletas para adultos, crianças e cadeirantes. O sistema deixou de usar alternadores automotivos e adotou motores trifásicos brushless (sem escova) como geradores, o que aumentou a eficiência energética de aproximadamente 50% para até 90% sem nenhuma necessidade de baterias, o que reforça o compromisso com a saúde do planeta e necessidade da interação do público.
Armelin. que é professor convidado na pós-graduação de Engenharia de Energias Renováveis na PUC-PR, relembra alguns trabalhos relevantes. “Geramos eletricidade para o cantor Lenine num grande show no Parque Villa Lobos, o Bikerama atendeu a scuderia da Ferrari, temos um monociclo exposto no Museu da Energia, iluminamos o Natal em Florianópolis, e também fizemos coisas corriqueiras, como irrigar água, ligar um karaoke e cinema, fazer café, pipoca e suco”, explica.
Pedale seu Suco
A Marabikes começou, em 2015, com a Bike Ybá, uma bicicleta que aciona um liquidificador adaptado aos pedais que transforma as pedaladas em sucos naturais preparados na hora. Inspirada em uma experiência da fundadora em uma temporada na Austrália, o empreendimento ganhou viés social.

“A gente vendeu bicicletas para pessoas empreenderem com a venda suco na rua ou na praia. É um investimento baixo e uma boa alternativa para gerar renda”, garante Larissa Rahmilevitz.
Outra ideia de cunho social surgiu durante a pandemia de Covid19. A Bike Energia é capaz de carregar celulares, acender luzes e alimentar equipamentos em eventos. “A gente aproveitou esse tempo da pandemia, que não tinha evento, para desenvolver essa bike que gera energia elétrica e usar isso em eventos”, diz Larissa.
A proposta inicial era ainda mais ambiciosa: levar eletricidade a populações sem acesso à rede convencional. Mas a viabilidade econômica impôs limites. “A intenção era atender comunidades remotas, mas percebemos que o custo seria muito maior do que o de painéis solares”, lamenta.
Hoje a Marabikes atende eventos com diversificação de atrativos: as bicicletas também movimentam roletas de prêmios, servem como food bikes e está em desenvolvimento um modelo para produzir caldo de cana, ampliando as possibilidades comerciais.
Teatro e cinema
O teatro também conta com a ajuda das bicicletas para tomar forma. Idealizado por Gustavo Guimarães, começou em 2010 com um miniteatro feito em um caixote de madeira na garupa de uma bicicleta. Hoje, possui um portfólio que combina teatro de bonecos com mobilidade urbana e intervenção artística em espaços públicos.

Nascido no Campo Limpo, periferia de São Paulo, o coletivo desenvolve uma pesquisa contínua em linguagens como o teatro lambe-lambe, apresentações em miniatura para um espectador por vez, além de formatos itinerantes que utilizam bicicletas e triciclos como palco e estrutura cênica.
O repertório reúne espetáculos e projetos como Trilogia Circo, Uma Saga Macunaímica, Kamishibai – histórias com influência japonesa, e produções mais recentes como A Bicicleta Mágica, além de intervenções como o Triciclo das Histórias, o Triciclo Culinário e o Triciclokê. As criações transitam entre literatura, cultura popular, educação e acessibilidade, incorporando recursos como Libras, realidade aumentada e formatos interativos.
Com apresentações em ruas, parques, CEUs, unidades do Sesc e eventos culturais, o grupo se destaca por levar o teatro para fora dos espaços convencionais, democratizando o acesso à arte e transformando a bicicleta em símbolo de circulação cultural, inclusão e experimentação estética.
Já o BikeCine é um projeto de cinema itinerante lançado em 2024 e é composto por sessões gratuitas de cinema ao ar livre realizadas em praças e espaços públicos, em que a energia necessária para a exibição — som, projeção e operação — também é gerada pelas pedaladas dos espectadores.

A estrutura inclui estações com bicicletas geradoras de energia, além de plateia convencional e tela inflável de alta qualidade, permitindo que o público escolha entre assistir ou participar ativamente pedalando. A programação é voltada para diferentes faixas etárias, com exibição de curtas, animações e longas, além de recursos de acessibilidade como Libras, legendas e soluções inclusivas como o pedal de mão.
“O BikeCine reúne pautas que consideramos importantes para a sociedade e para o planeta. Queremos proporcionar cultura, entretenimento, bem-estar, conscientização e inclusão. Quando o público vivencia a utilização da energia sustentável na prática, é convidado a refletir sobre o consumo energético, colaboração coletiva e mobilidade urbana”, ressalta Marco Costa, coordenador geral da iniciativa.
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