Sou ciclista e voto em Lula porque também sou alvo do bolsonarismo

Por George Queiroz – Em outubro de 2018, a vida estava muito tensa. Vivíamos o mais duro processo eleitoral que o Brasil tinha visto desde a redemocratização.

Eu pedalava pelo Centro de São Paulo quando parei atrás de um enorme carro preto, daqueles estilo SUV. Encaixado na porta traseira do veículo, o pneu reserva estava envelopado com uma ilustração de um cano de um revólver. Na perspectiva, o cano apontava diretamente ao meu rosto.

Em volta desta arma, lia-se a frase

“É melhor Jair se acostumando”

Nesse dia eu entendi que eu, ciclista, também seria alvo da necropolítica da extrema direita.

A política que deseja a morte de pobres, de negros, de mulheres, de indígenas, de LGBTs, de imigrantes, de palestinos é a mesma que deseja a minha morte, pois eu também sou um cidadão de segunda classe. 

“As minorias que se adequem, ou simplesmente desapareçam”, um dia disse este Jair.

É esta visão de mundo que autoriza as finas, os xingamentos no trânsito e os atropelamentos. É o mundo que vê como cidadão de bem padrão apenas o homem branco hétero e de classe média, e que só se desloca dirigindo um carro.

Não que eu não tivesse escutado outros sinais.

Mesmo sendo ciclista urbano há muitos anos, eu mergulhei no cicloativismo entre 2014 e 2015, quando o então prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) sofria ataques absurdos por ter tido a coragem de implantar uma rede de ciclovias na cidade. O ódio acontecia ao mesmo tempo em que a Operação Lava Jato de Curitiba buscava diversos meios ilegais e forjava mentiras para derrubar a presidenta petista Dilma Rousseff e prender o maior líder da classe trabalhadora, Luís Inácio Lula da Silva. Dilma foi deposta por supostas “pedaladas” fiscais (um nome pejorativo inventado para um crime que sequer existia) e anos depois Lula foi encarcerado por “atos de ofício indeterminados”. Criticar as ciclovias era criticar o PT, e desde então esta pauta ficou tóxica na política.

Não há como separar as coisas. O ódio ao ciclista que sofríamos diretamente enquanto pedalávamos passou a ser a materialização da fúria antipetista nas ruas. Éramos xingados por motoristas de carro apenas por estar de camisa vermelha. A agressividade e o ódio são marcas da direita.

A reação raivosa do conservadorismo carrocrata ao perder pequenas partes de seu espaço sagrado para ciclofaixas em São Paulo deixou claro que a luta do ciclista é também uma luta por terra e liberdade. Lutamos por ciclovias da mesma forma que o MST luta por reforma agrária. Somos parte da luta progressista.

Andar de bicicleta é por si uma contestação. O ato de colocar nossos corpos vulneráveis em espaços onde não somos bem vindos, que foram desenhados por e para a elite econômica, armada com suas máquinas mortíferas, é definitivamente um ato subversivo. Corremos perigo e infelizmente já perdemos amigos nesta batalha.

A subversão de se locomover com seu próprio esforço, sem ajuda de motores, sem queimar petróleo, sem pagar tarifas, não é bem vista pelo conservadorismo onde o automóvel é o símbolo máximo de ascensão social e privilégio no capitalismo. 

E é por isso que eu afirmo com convicção que, sim, pedalar é um ato de esquerda.

“Ah, mas o que mais tem é ciclista de direita!” – Sim, é verdade.

“Ah, tem políticos de direita que já fizeram ciclovias” – Sim, é verdade

“Muitos políticos de esquerda se omitem e até nos criticam” – Sim, é verdade.

Mas não caio nessa falsa simetria.

Todo mundo que sobe na bicicleta, mesmo os ciclistas ricos, com bicicletas que custam tanto quanto um carro, são alvos imediatos de preconceitos classistas e correm os mesmos riscos.

Mas quem entende que a bicicleta não é somente um equipamento esportivo, mas também um instrumento de transformação social, de combate à crise climática, de oposição ao modelo urbano excludente e mortal imposto pelo poder econômico, imposto pela indústria automobilística, imposto pelas gigantes petrolíferas? São os grupos progressistas. Não basta ser ciclista, é preciso saber que o ciclista só terá segurança quando este sistema for questionado.

Essa tal carrocracia nos confinou e naturalizou nossa morte. As ruas se tornaram um espaço de disputa pela força, vencida por aqueles que portam verdadeiros tanques de guerra disfarçados de “veículos utilitários”, e os despossuídos, que enfrentam as ruas de peito aberto. No trânsito, o rico de Porsche mata, o pobre entregador morre. Somos a carne mais barata do asfalto.

A elite pode até andar de bicicleta no fim de semana, mas nos outros dias ela é beneficiária deste modelo.

Na política, mesmo com a omissão de muitos companheiros da esquerda, a maior evolução nas cidades sempre se deu, com honrosas exceções, a partir do enfrentamento feito por agentes políticos progressistas. Da ação contracultural dos Provos holandeses à Critical Mass de inspiração anarquista, de Anne Hidalgo em Paris a Fernando Haddad em São Paulo e Zohan Mamdani em Nova Iorque, é a esquerda que faz o movimento. 

Já a oposição política a ciclovias é marca da extrema direita. Desde Rob Ford em Toronto ao PSDB São Paulo e o Partido Novo de Belo Horizonte, que batalharam ativamente no legislativo, no judiciário e no executivo contra a retirada de espaço do automóvel para criar ciclovias. Nas redes sociais, os xingamentos recreativos aos ciclistas são uma forma não tipificada de ódio, praticada por aqueles que nos odeiam, da mesma forma que também são machistas, racistas, homofóbicos, transfóbicos, xenófobos e aporofóbicos. Não falha: praticamente todos os comentários agressivos que recebo quando falo defendo as bicicletas vêm da extrema-direita.

Lula não é ciclista. É um metalúrgico que se criou politicamente nas montadoras de carros do ABC Paulista. Ele quer que todo pobre possa ter um carro. E ele está certo. Lula passou décadas vendo a classe operária montar carros sem ter condições de tê-los. O que a classe trabalhadora produz, a ela deveria pertencer, certo? A escolha pela bicicleta deve vir de uma opção livre, a partir de cidades seguras para quem pedala, e não da imposição econômica da falta de dinheiro.

Por essas e muitas outras que não tenho medo de dizer de que lado estou. Pedalo pela esquerda e em mais uma eleição dura estamos com Lula presidente e contra o neofascismo corrupto da família Bolsonaro.

Vamos de 13 na urna e permaneceremos no lado certo da história.

George Queiroz é publicitário, cicloativista e co-fundador do Ciclo Comitê Popular de Luta @Pedalula


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