Quem pedala por liberdade também precisa defender a democracia – por Flávio Dagli

Em uma cidade como São Paulo, onde o trânsito é dominado pelos carros, usar a bicicleta como meio de transporte é um ato político. Essa é a razão pela qual os ciclistas são frequentemente atacados verbal e fisicamente nas ruas. Afinal de contas, neste país, esse é o tratamento dado às pessoas que se posicionam politicamente de forma contrária ao poder e pensamento hegemônicos.

Quem se desloca em veículos de duas rodas e com menos de 20 kg vira uma vítima fácil da turma das quatro rodas e de seus carros com mais de 1 tonelada. A começar pelos xingamentos covardes de motoristas que se sentem seguros dentro de sua fortaleza de lata. Se por um lado os ataques verbais não matam ninguém, por outro os ataques físicos, que vão desde a tal “fina corretiva” até as fechadas criminosas – sempre escorados pelos mil quilos de lataria -, colocam as nossas vidas em risco diariamente.

A violência, no caso, é fruto da mentalidade de que quem tem mais força nas ruas – isto é, usa o veículo mais pesado e mais caro – deve ter prioridade sobre os demais, por mais que essa ideia contradiga as normas do Código Brasileiro de Trânsito.

A partir disso, fica fácil traçar um paralelo entre o que ocorre no nosso trânsito e com o que acontece na sociedade como um todo. Afinal, quem tem mais dinheiro e poder acredita ter mais direitos sobre as pessoas de classes menos favorecidas, o que leva quem está no topo da pirâmide social e econômica a menosprezar as demais. Isso se traduz, além das violências verbais e físicas, principalmente contra mulheres, pessoas negras, periféricas e da comunidade LGBTQIA+, em leis para atender os próprios anseios, em detrimento da imensa maioria da população. 

O domínio é completo. As classes dominantes controlam os meios de produção e de comunicação (os CEOs de Big Techs bajuladores de Donald Trump estão aí para comprovar isso), têm fortíssima influência sobre o Judiciário e o Legislativo e, claro, lutam com afinco para chegar ao Executivo.

Por essas razões, para um ciclista urbano, defender quem se posiciona ao lado das classes menos favorecidas é um caminho natural – mesmo que haja críticas severas a quem está “do lado bom da força”, seja esta pessoa um líder comunitário, um padre, um jornalista ou um político. 

Falando do campo político, é necessário entender o momento histórico em que vivemos para nos posicionarmos. Nas eleições presidenciais deste ano, temos a disputa entre um presidente com histórico de implementação de políticas de fomento das classes menos favorecidas e um clã familiar liderado por uma pessoa vil que, por dezenas de vezes, manifestou sua ojeriza às minorias ou pessoas minorizadas, como as mulheres. Isso sem contar com a obsessão dessas pessoas pela volta do regime ditatorial – outro inimigo das minorias.

Não há necessidade de idolatrar o presidente Luís Inácio Lula da Silva. Entretanto, me parece natural, como ciclista, apoiá-lo neste momento crítico em que nossa democracia está, mais uma vez, sendo fortemente atacada por este clã asqueroso, com suspeitíssimas relações com o crime organizado e com um histórico de menosprezo pela vida da população – preciso lembrar aqui frases como “e daí? Eu não sou coveiro” para provar meu ponto?

É preciso lembrar ainda que quem anda de bicicleta preza acima de tudo pela liberdade. Liberdade de usar seu meio de transporte favorito em detrimento daquele imposto pelas elites econômicas, liberdade de sentir o vento na cara, liberdade como contraposição ao confinamento em uma lataria. Quem gosta de liberdade deve se opor aos Bolsonaro e seus apoiadores, que defendem abertamente um período nefasto da história brasileira em que a liberdade deu lugar ao terror da censura e da repressão. 

Sou ciclista e voto em Lula porque quero a liberdade dos brasileiros de terem seus direitos respeitados e a defesa das pessoas menos favorecidas.

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Flávio Dagli é jornalista e produtor do podcast De Carona na Magrela, de entrevistas com cicloviajantes que contam suas aventuras pelas estradas do Brasil e no mundo.

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