Estou muito contente que Liana Cirne tenha sido eleita deputada federal pelo PT de Pernambuco. Vereadora do Recife, ela conquistou 85.039 votos e vai representar Pernambuco na Câmara dos Deputados a partir de 2027. Liana tem um histórico de atuação relacionado à mobilidade urbana e à bicicleta desde o legislativo municipal. Em 2024, por exemplo, promoveu uma audiência pública para discutir o Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana do Recife, que completava dez anos. A discussão contou com representantes da sociedade civil e da Ameciclo, que defendeu a execução da rede prevista pelo plano.
Eu reproduzi no Jornal Bicicleta esse plano do Recife. Em outubro de 2024, reportagem assinada por Yara Baiardi no Brasil de Fato mostrou que, dez anos depois da aprovação do plano, ainda era necessário avaliar o que havia sido efetivamente implantado e discutir uma revisão com a sociedade.

Tal experiência deverá acompanhar Liana em Brasília. Durante a campanha de 2026, ela colocou entre os compromissos os temas relacionados ao financiamento do transporte público, à mobilidade ativa e à segurança viária. Entre as propostas está a defesa da criação do Sistema Único de Mobilidade (SUM), uma iniciativa suprapartidária que busca estabelecer uma nova estrutura de financiamento e organização do transporte público brasileiro, articulando os diferentes modos de transporte e ampliando a participação federal no financiamento da mobilidade urbana.
A relação de Liana com a bicicleta também apareceu de forma simbólica na reta final da campanha, quando ela encerrou suas atividades de rua no Recife com uma bicicletada com apoiadores, mas ela não será, entretanto, a primeira parlamentar a chegar ao Congresso Nacional com uma trajetória ligada à bicicleta.
É preciso destacar a presença de Jilmar Tatto, deputado federal reeleito pelo PT de São Paulo. Tatto foi secretário municipal de Transportes durante a gestão do prefeito Fernando Haddad, entre 2013 e 2016, período marcado por uma grande expansão da infraestrutura cicloviária paulistana e esteve à frente da implantação dos aproximadamente 400 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas durante aquela gestão.
Em 2024, ele voltou a defender a bicicleta como parte da política de transição energética no setor de mobilidade e tentou incluir na lei que criou o Programa Mover, uma isenção de IPI para o veículo de mobilidade ativa.
Outro nome que chega ao Congresso e que tem relação com a agenda da mobilidade ativa é Luna Zarattini (foto de abertura). Em segundo mandato como vereadora da capital paulista, foi eleita deputada federal pelo PT com 233.733 votos e é nossa aliada de primeira hora, tendo se posicionado contra um projeto de lei que permite privatizar as ciclovias em São Paulo e participado do pedido de CPI na Câmara Municipal para investigar a epidemia de mortes no trânsito em São Paulo.
No meu caso, a relação com Luna é também uma relação construída nas ruas. Ela é uma das parlamentares com quem o Ciclo Comitê Popular de Luta – Pedalula, aqui de São Paulo, mantém diálogo. Desde sua chegada à Câmara Municipal em 2023, tivemos espaço para apresentar nossas demandas e discutir as políticas públicas relacionadas à mobilidade e ela, sempre que pode, vem pedalar com a gente.
Agora, com Liana e Luna chegando à Câmara dos Deputados e Jilmar Tatto permanecendo no Congresso, parte das experiências acumuladas nas câmaras municipais de Recife e São Paulo passa a fazer parte do debate nacional. E é justamente nesse ponto que gostaria de fazer um pedido político — este, sim, como opinião de quem acompanha e participa da luta pela bicicleta.
Precisamos avançar não apenas no debate sobre o SUM e a Tarifa Zero, mas também na discussão do Projeto de Lei federal 2.789/2023, o PL das Velocidades Seguras que altera o Código de Trânsito Brasileiro. Sem ele, vamos continuar vendo a escalada da tragédia de segurança viária aumentar. Morrem mais de 37 mil pessoas no trânsito (dados de 2024) e isso tem que acabar pois esse problema de saúde pública consome muito dinheiro do SUS (R$ 449 milhões com internações só em 2024 segundo o IPEA) e desgraça a vida dos parentes que choram os mortos ou cuida de mutilados.
Precisamos ainda que os ministérios das Cidades e do Meio Ambiente incorporem cada vez mais a bicicleta às políticas de mitigação das emissões e de transição para uma mobilidade de baixo carbono, em consonância com as diretrizes do Plano Clima do governo federal, pois a bicicleta não pode ser tratada como um tema periférico da política de mobilidade. Ela precisa estar integrada ao planejamento do transporte público, à segurança viária, à política climática e ao planejamento urbano.
E isso não se trata apenas de construir ciclovias. Trata-se de discutir que cidade queremos, como distribuímos o espaço público e quais meios de transporte devem receber prioridade no planejamento das cidades brasileiras, o que faz com que o debate que fazemos nas ruas precise ser levado a sério cada vez mais no Congresso Nacional.
A bicicleta já está nas ruas. Agora, o desafio é fazer com que ela também esteja no centro das políticas públicas nacionais de mobilidade, segurança viária e enfrentamento da emergência climática.
Que a nova legislatura saiba ouvir quem pedala e que as experiências acumuladas por quem já enfrentou esses debates nos municípios possam contribuir para que a bicicleta avance também em Brasília.
Foto de abertura: Luna Zarattini pedala com ciclistas do ciclo comitê popular de luta Pedalula em 3/06/2023 – Ivson Miranda
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