Ciclovias e estações de compartilhadas de bicicletas são fartas em bairros de brancos e ricos e escassas nas periferias

Por Janaina Simões – Do Centro de Estudos da Metrópole

A atual extensão da malha cicloviária da cidade de São Paulo equivale a 37,8% da meta de 1.800 quilômetros prevista em três planos estabelecidos pela prefeitura paulistana para 2028. Até o momento, as melhores infraestruturas para uso de bicicletas têm sido destinadas, especialmente, às pessoas de classe alta e brancas. Essas são as principais conclusões da sexta Nota Técnica “Políticas Públicas, Cidades e Desigualdades”, produzida pelo Centro de Estudos das Metrópole (CEM), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Cepid-Fapesp), sediado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). 

A Nota Técnica “Priorizar o transporte ativo por bicicletas!” avalia a relação entre medidas propostas pelo último Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo de 2014, além de uma análise dos instrumentos de planejamento relacionados ao sistema cicloviário de São Paulo e da situação atual frente ao que foi planejado nos últimos anos, sob a perspectiva das desigualdades. 

Entre as principais diretrizes do PDE 2014 está a necessidade de priorizar o transporte coletivo e modos não motorizados e o incentivo à integração física e operacional entre ambos. A partir dessa diretriz, foram criados instrumentos de planejamento para o sistema cicloviário, como o Plano de Mobilidade do Município de São Paulo (PlanMob), o Plano Cicloviário 2020 e o Plano de Ação Climática (PlanClima 2021). Neles está expressa a meta de chegar a 1.800 quilômetros de malha cicloviária implantadas até 2028.

Porém, segundo a análise explicitada na NT 6, atualmente a capital paulista conta com 649,4 km de ciclovias e ciclofaixas, além de 31,6 km de ciclorrotas, o equivalente a 37,8% da meta prevista. Ao mapear a distribuição da atual infraestrutura, os pesquisadores autores da Nota Técnica, Laura M. Fortes, Flávio Soares, Luiz Marcelo T. Alves e Mariana Giannotti, pesquisadora e coordenadora da área de Difusão e Transferência do CEM e professora da Escola Politécnica da USP (Poli), observaram que ela atende principalmente às regiões mais centrais da cidade. As poucas estruturas em regiões periféricas estão, em sua maioria, desconectadas da malha principal ou mesmo de uma malha regional. “Um contrassenso observado é a ausência de ciclovias e ciclofaixas em áreas em que grande parte da população não possui automóvel.” 

As desigualdades do sistema cicloviário

O mapeamento feito pelos pesquisadores mostra ainda que pessoas brancas de classe alta são especialmente contempladas pela infraestrutura cicloviária. A renda dos moradores a 300 metros das ciclovias e ciclofaixas é 43% maior do que a média da cidade. No entorno das estações de bicicleta compartilhada a renda é 223% maior do que a média. 

“Enquanto a renda média da cidade é de R$1.125,00, calculada a partir do Censo 2010, a renda dos moradores a 300 metros das ciclovias e ciclofaixas é de R$1.611,00 (43% maior), e a renda a 300 metros das estações de bicicletas compartilhadas é de R$3.631,00 (223% maior). Ainda foi possível observar que 74,6% da população que mora no entorno de 300 metros do sistema de bicicletas compartilhadas possui automóvel, enquanto nas proximidades das ciclovias e ciclofaixas essa proporção é de 61,1%. A proporção média de toda a cidade é de 55,1%”, destaca a NT. Pessoas negras de classe baixa moram majoritariamente em regiões menos atendidas por esta infraestrutura, enquanto a classe alta branca se concentra nas regiões centrais e com maior infraestrutura cicloviária na cidade.

Outras infraestruturas do sistema cicloviário

A NT lembra, também, que um levantamento recente realizado pela Ciclocidade (2020) estima que dos 162 locais em terminais e estações de transporte público que deveriam contar com bicicletários com zeladoria, apenas 30% de fato contemplam tais infraestruturas. Também há previsão para a instalação de um bicicletário público na área de cada uma das 32 Subprefeituras da cidade até 2024, pelo menos, mas esta iniciativa ainda não teve início.

Com relação ao sistema de bicicletas compartilhadas, o PlanMob 2015 e o Plano Cicloviário 2020 estabelecem como meta que abranjam 100% do território da cidade até 2028. No entanto, existem hoje apenas dois sistemas operando na cidade, ambos na Zona Centro-Oeste da cidade. 

O objetivo da política cicloviária como um todo é sair do atual 0,8% e chegar a 3,2% de viagens realizadas em bicicleta no total de viagens até 2028 (PlanMob 2015). As metas para os anos seguintes, estabelecidas pelo PlanClima 2021, estabelecem chegar a 4% do total de viagens até 2030, 6% até 2040 e 8% até 2050. “A meta de aumentar a proporção de viagens em bicicleta para que chegue a 4% do total até 2030 significa quintuplicar os atuais 211 mil deslocamentos diários para pouco mais de 1 milhão em um período de dez anos”, aponta a NT. 

A NT 06 “Priorizar o transporte ativo por bicicletas!” pode ser acessada na íntegra aqui e é parte de um conjunto de estudos publicados semanalmente pelo CEM que abordam aspectos do planejamento municipal, como o parque imobiliário, a mobilidade, a participação social e o orçamento. Essa sequência de trabalhos está orientada a informar os debates sobre a revisão do PDE em curso, bem como as discussões que serão promovidas pelo Fórum SP 21, que se realiza entre 21 e 30 de setembro e que visa analisar o planejamento urbano da cidade de São Paulo. O CEM é um dos apoiadores do evento. Mais informações no site oficial do Fórum SP 21.

Foto de Abertura – Ciclovia na avenida Pedroso de Moraes em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. 2/04/2017 – Rogério Viduedo

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