O Brasil segue uma tendência perigosa ao não promover um radical acalmamento viário. As mortes no trânsito não são obra do acaso. Elas acontecem, em grande parte, pela inépcia de quem administra o ir e vir das pessoas.
O caso de Manu e Chico, mãe e filho mortos na Tijuca, no Rio de Janeiro, não sai da minha cabeça. Não foi apenas uma tragédia — foi o retrato da nossa falha coletiva de proteger a nós mesmos.
Eu me pergunto: como um motorista de ônibus, ou de qualquer veículo, pode ser tão desonesto em sua humanidade a ponto de, sabendo da força que tem nas mãos, preferir manter a velocidade diante de uma situação claramente perigosa?
Essa tragédia podia ter sido evitada.
Mas quem pedala sabe: motoristas, naquele trecho — e em tantos outros — não aliviam para pessoas em bicicleta. A presença dela ainda segue vista como um incômodo e afronta. “Onde já se viu vir passear aqui?”, é o tipo de pensamento que se impõe nas ruas.
Eu digo isso também por experiência própria. Uma vez pedalei pelo Rio e levei um “fino” pesado ali perto da Mureta da Urca. O motorista do ônibus ainda gritou algo como “vai morrer”. E seguiu. Ali ficou claro para mim que a agressividade no viário não é exceção — é regra.
E não é só na rua. Já ouvi, dentro do meu próprio convívio profissional, alguém dizer que gostava de “brincar” com ciclistas nesses termos. Isso não é brincadeira. Isso é a normalização da violência.
Eu imagino um cenário diferente — e ele não é utópico. Um motorista em condições humanas teria antecipado o risco, reduzido a velocidade e esperado mãe e filho concluírem seu trajeto. Mas a nossa cultura viária não permite esse tipo de humanismo. No senso comum, quando aparece um ciclista, a reação muitas vezes parece ser a de passar por cima.
O que mais me preocupa é o silêncio.
Quem se diz profissional de segurança viária e não se indigna com essa escalada de violência automotiva também faz parte do problema. Dorme bem à noite enquanto os números já apontavam o que viria.
A Organização Mundial da Saúde já alertava, em 2023, para o aumento das mortes de ciclistas no mundo devido ao expressivo uso de e-bikes. Eu publiquei a notícia em primeira mão. O Relatório Global de Segurança Viária mostrou que, na Europa, a participação de ciclistas nas mortes no trânsito saltou de 4% para 9% — um aumento de 125%. Isso mesmo com a redução geral de 36% nas mortes entre 2010 e 2021. Os maiores afetados são os idosos, atraídos pela suposta economia, agilidade e conforte que elas apregoam.
Ainda segundo a OMS, no Sudeste Asiático a situação era ainda mais grave: os casos triplicaram, passando de 4% para 12%. Ou seja: o problema está posto, identificado e documentado mas os doutores das CETs ficam patinando na lama, fazendo ouvidos moucos, tergiversando e as pessoas continuam morrendo.
O Brasil segue atrasado. A popularização das bicicletas — inclusive elétricas — cresce, mas sem o correspondente investimento em segurança. Sem redução de velocidade dos automóveis e demais motores, sem infraestrutura adequada, sem fiscalização e sem mudança cultural, o que estamos fazendo é ampliar o risco.
Eu não consigo tratar casos como o de Manu e Chico como fatalidade
Para mim, isso é resultado de escolhas. Escolhas políticas, escolhas culturais e escolhas individuais.
E enquanto o país não enfrentar isso com seriedade, seguir pedalando por aqui continuará sendo, para muitos, um ato de coragem — quando deveria ser apenas parte da vida cotidiana.
O mais recente exemplo disso vem da própria prefeitura do Rio de Janeiro, que decidiu restringir a circulação de bicicletas elétricas e ciclomotores das vias acima de 60 quilômetros por hora — na prática, empurrando esses veículos ultraleves para ruas de até 40 o que inviabiliza o uso em grande parte da cidade. Para mim, isso não é organização: é exclusão mascarada de regulação.
Especialistas apontam que esse tipo de medida entra em conflito com o espírito do Código de Trânsito Brasileiro, que reconhece a bicicleta, inclusive elétricas, como veículo e garante seu direito de circulação. Ao restringi-las, o poder público transfere o problema em vez de resolvê-lo — e reforça a ideia de que o ciclista é um intruso, quando deveria ser protegido, diante de tanto benefício que traz para a sociedade.
No fundo, eu vejo um conflito estrutural que pouca gente quer encarar: acomodar com segurança bicicletas, ciclomotores e outras formas de mobilidade ativa exige reduzir espaço e prioridade dos carros — e isso bate de frente com a lógica de expansão da indústria automotiva e com o modelo de cidade que ela sustenta. Enquanto essa disputa não for enfrentada de forma transparente, continuaremos empurrando soluções pela metade e contando mortes que poderiam ser evitadas.
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