Adriana Marmo, 58 anos, não aprendeu a andar de bicicleta na infância, pois a mãe via na bicicleta um risco muito grande. “Ela tinha pavor que eu me machucasse, morresse. Era um medo com fundamento, pois cinco ou seis pessoas próximas morreram em acidentes de trânsito”, lembra. Contrariando o medo da mãe, aos 13 anos, aprendeu sozinha. Essa relação, no entanto, só ganharia força anos mais tarde — e se tornaria, aos poucos, um símbolo de mudança, liberdade e recomeço.
Paulista de Limeira, cresceu entre sonhos e desejos. Por muito tempo quis ser médica veterinária, até que, às vésperas da matrícula, mudou de ideia. Um primo jornalista, que ela achava “um cara muito legal — talvez fosse legal justamente por ser jornalista”, acabou influenciando sua escolha. Achou que o jornalismo a levaria mais longe pelo mundo.
Nos anos 1990, morou por três anos em Roma, onde descobriu o prazer de se deslocar de bicicleta pelas ruas históricas. A experiência lhe mostrou o quanto pedalar pode ser sinônimo de pertencimento. “Foi em Roma que eu entendi o quão gostoso era viver a cidade sobre duas rodas”, recorda.
De volta a São Paulo, não conseguiu se ver pedalando pelo caos da maior cidade da América Latina — e seguiu seu caminho pelas redações. Trabalhou como freelancer e repórter, escrevendo sobre carros, consumo e luxo. Para a Veja, cobriu temas ligados ao consumo de alto padrão — de bolsas de R$30 mil a automóveis esportivos. “Eu pilotava carros caríssimos e amava. Amava velocidade.”
Uma reportagem na Holanda sobre smart cities foi o ponto de virada: ali, Adriana viu o que era mobilidade de verdade — ruas pensadas para as pessoas, e não para os carros. “Foi quando entendi que eu precisava viver a cidade de outro modo.”
Ao voltar ao Brasil, decidiu vender o carro que tanto amava — um processo longo, de quase nove meses, gestando uma nova etapa da vida. A mudança ocorreu durante o governo Haddad, em 2014, quando São Paulo começou a implementar uma política mais robusta de mobilidade ativa para bicicleta. “Ali eu vi que era possível ocupar o caos da cidade de outra forma, por outros percurso”, conta. A bicicleta, antes um lazer de fim de semana, virou, de fato, um meio de locomoção diária e um novo jeito de estar no mundo.
O pedal levou Adriana a outros espaços. Passou pela Aliança Bike, onde atuou na comunicação e na produção de conteúdo, e colaborou em projetos de mobilidade urbana em Fortaleza, como a implementação de triciclos para catadores. No audiovisual atua com pesquisa para roteiro e produção. Um dos trabalhos desenvolvidos é a série documental Mobilis, para o Canal Curta. São 13 episódios sobre Mobilidade Urbana. Em 2024, uma grata vitória e uma nova fase: passou a trabalhar com a vereadora Renata Falzoni, como coordenadora de comunicação do gabinete.
Lá, encontrou um ambiente diverso, horizontal e cheio de significado. “É um espaço de renovação contínua, onde a gente trabalha de igual para igual, com pessoas de diferentes idades e realidades, mas com um propósito comum”, define.
Adriana enxerga na bicicleta uma metáfora da própria vida — das relações com o trabalho, com a mãe e com o filho, do papel como mulher e cidadã.Sem um elo, uma corrente com a força motriz da bicicleta. A bicicleta como uma renovação e um arejar da própria vida.
Foto: Doug Oliveira Leforte
“Quem pedala por aí?”
Em cima da bicicleta, cada pessoa carrega mais do que seu próprio peso: leva histórias, lutas, sonhos e trajetos que vão muito além de um simples deslocamento. Nesta série de perfis, conhecemos a história de quem escolheu a bicicleta como meio de transporte, trabalho, saúde, diversão, ferramenta de militância, companheira de longas viagens e de vida.
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