Hoje é Dia Mundial do Pedestre. Depois dos motociclistas, é o modo de transporte que mais mata nas ruas, avenidas e calçadas do Brasil. Defender pedestres é uma causa que não movimenta grandes campanhas e protestos, não vende equipamentos caros e não suscita debates acalorados nas mesas dos bares. Quem liga para pedestre? Eu ligo. Toda caminhada, pedalada, viagem ou deslocamento é feito primeiro à pé. Mas quem consegue atravessar uma avenida em quatro segundos? A CET-SP acha que todo mundo. Há exemplos nas avenidas dos Metalúrgicos, Celso Garcia, e rua Cardoso de Almeida, entre outras.
A afirmação é do Instituto Corrida Amiga, que me pediu ajuda para divulgar uma contestação sobre declarações da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-SP) da Cidade de São Paulo, vinculada à Secretaria de Mobilidade e Trânsito do Governo Ricardo Nunes. A autarquia municipal disse que havia consertado todas as travessias apontadas como problemáticas pela Campanha da Travessia Cilada 2024. O estudo havia concluído que o tempo de travessia para pedestres normais e sobretudo PCDs, crianças e idosos não é suficiente para cruzarem de uma calçada para outra.
Porém, na sexta-feira, (24/05), em matéria divulgada pelo Estadão, a CET-SP afirmou que todos os semáforos considerados críticos pela campanha 2024 haviam sido reparados. A Corrida Amiga tinha analisado 167 semáforos em 21 cidades brasileiras e identificado que em alguns casos, o sinal ficava verde para o pedestre em exíguos quatro segundos, apesar do tempo média ter sido aferido em 15 segundos.

A CET-SP respondeu. “A administração municipal garante que os semáforos que apresentaram tempo reduzido de travessia no estudo do Instituto Corrida Amiga, de 2024, estavam com defeito e passaram por manutenção”.
Como resposta, o Instituto Corrida Amiga organizou um esforço coletivo entre os dias 26 e 29 de maio, para comprovar que até 25 travessias apontadas como problemáticas na campanha de 2024, embora com algumas melhoria, ainda seguiam longe de garantir segurança adequada para quem anda a pé. Você pode acessar os dados aqui.
A verificação em campo identificou que:
● 44% dos semáforos seguem com apenas 4 a 5 segundos de tempo verde.
● A média do tempo verde subiu de 4,7 segundos (2024) para 5,8 segundos (2025) um ganho de apenas 1 segundo, equivalente a um aumento de 20%.
● O tempo de espera caiu de 120 segundos para 98 segundos, mas mais da metade das travessias ainda ultrapassa 90 segundos de espera — sendo que uma delas ultrapassou 3 minutos.
Para aferir os resultados, a ONG utilizou os parâmetros do Estatuto do Pedestre de São Paulo, que determina velocidades de travessia diferenciadas conforme o grupo populacional (0,6 metros por segundo para crianças e PCDs, 0,8 m/s para idosos. Considerando os tempos de verde e vermelho piscante, os dados das travessias analisadas revelam que:
● Apenas 20% oferecem tempo suficiente para que idosos atravessem com segurança.
● 90% das travessias sem tempo seguro para crianças e pessoas com deficiência.
● Mesmo adotando o critério mais excludente – 1,2 m/s, utilizado pela CET-SP – apenas 40% das travessias garantem o tempo necessário para que o pedestre complete a travessia com segurança.
● Travessias em condição gravíssima de risco, onde o tempo semafórico disponível representa menos de um terço do tempo necessário para que uma pessoa complete a travessia com segurança. Isso exige uma velocidade de caminhada três vezes superior à considerada segura para
idosos ou crianças.
Segundo a ONG, “apesar da visibilidade da campanha e da resposta pública da CET, os dados comprovam que a lógica da regulação semafórica em São Paulo ainda privilegia a fluidez dos veículos. O tempo urbano segue negado a quem caminha, e a readequação feita é, em grande parte, simbólica ou insuficiente frente à realidade dos corpos que circulam a pé.
Foto da abertura: pedestres na avenida Francisco Matarazzo em São Paulo – Rovena Rosa – Agência Brasil 16/03/22
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