Bicicleta e a vida depois dos 50: saúde, longevidade e finanças equilibradas

Recentes descobertas científicas vêm confirmando o que o senso comum já sabe: a adoção da bicicleta para deslocamento nas rotinas diárias prolonga a longevidade e atua como uma vacina contra o surgimento de doenças principalmente em pessoas com idades a partir dos 50 anos de idade. O estudo, Principais características da imunossenescência, incluindo a redução da produção tímica, são amenizadas por altos níveis de atividade física na idade adulta, publicado na revista científica britânica Aging Cell em 2018, constatou que a prática intensa do ciclismo deixou adultos de 55 a 79 anos menos suscetíveis às doenças normalmente associadas ao envelhecimento porque o timo – glândula responsável por fabricar as que trabalham na defesa do organismo – mantinha-se tão produtivo quanto o de um jovem

Os cientistas analisaram perfis imunológicos de três grupos: 125 ciclistas que mantinham frequência contínua de atividade física na maior parte da vida adulta; 75 idosos saudáveis, porém sedentários, com idades correspondentes; e 55 jovens com idades entre 20 e 36 anos, igualmente saudáveis. O resultado mostrou que os ciclistas apresentaram frequências mais altas de células T virgens em comparação com idosos inativos, em quantidade similar à do grupo de jovens. Eles ainda apresentaram níveis mais elevados da citocina timoprotetora IL-7 e níveis mais baixos de IL-6, que promovem a atrofia tímica.

“O exercício retarda o envelhecimento biológico, prolongando a vida média das células e retardando o encurtamento dos telômeros”, resume o doutor Paulo Saldiva, médico patologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Os telômeros a que se refere são estruturas nas pontas dos cromossomos que vão diminuindo em um processo natural de envelhecimento celular. Se a pessoa é estressada, não exercita o corpo e não se alimenta bem, o encurtamento se acelera, mas se mantém uma rotina mínima de atividade física, e se preocupa com a alimentação e a saúde mental, o processo demora mais. O estudo, Atividade física e comprimento dos telômeros: impacto do envelhecimento e potenciais mecanismos de ação, de pesquisadores liderados por Nicole C. Arsenis, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Boston, no Estados Unidos, dá mais detalhes sobre esse assunto.

Exercício sem trauma

Ciclista desde a infância, o doutor Saldiva enumera outros aspectos relevantes na saúde de quem pedala regularmente, principalmente para quem já passou dos 50 anos. “Além dos benefícios celulares, pedalar não causa trauma articular como as atividades de alto impacto como a corrida, e contribui também para a manutenção da massa muscular, especialmente nas pernas, o que é fundamental para a mobilidade e o equilíbrio em idosos, reduzindo o risco de quedas”, reforça. 

Doutor Paulo Saldiva: fortalecer as pernas é fundamental para quem é 50+.

Outra condição que o envelhecimento provoca e que pode ser contido com a frequência no uso da bicicleta é a melhoria das condições cardiovasculares para pessoas com diabetes. Uma pesquisa  liderada pelo doutor Mathias Ried-Larsen, do Centro de Pesquisa em Atividades Físicas de Copenhague, na Dinamarca, analisou o perfil clínico de 7.459 adultos com média de 55,9 anos de idade. Cinco anos depois, os participantes que começaram a pedalar no início do estudo apresentaram um risco consideravelmente menor de morrer por diversas causas – incluindo as do coração – em comparação com os não ciclistas. Quem passou a usar a bicicleta até 59 minutos por semana apresentou 22% menos risco de morte em geral do que os sedentários e aqueles que pedalavam de 150 a 299 minutos por semana apresentaram risco 32% menor. Ao mesmo tempo, o estudo mostrou que o risco da mortalidade cardiovascular para ciclistas foi 21% e 43% menores, respectivamente, em relação aos sedentários.

“A presente investigação amplia o nível de evidência neste campo, documentando que a prática do ciclismo pode oferecer benefícios específicos à saúde de pessoas com diabetes, além de outras atividades físicas, incluindo caminhadas. O deslocamento em modo misto (caminhada e/ou ciclismo) tem sido associado à redução da mortalidade em pessoas com diabetes”, concluíram os cientistas.

Ela se curou do pânico e ele da pressão alta

Quem viu uma transformação em todas as partes da vida a partir da inclusão da bicicleta nas rotinas diárias foi a família de Silene Athayde, 55, de Belém (PA). Em 2017, ela foi diagnosticada com síndrome do pânico e ansiedade.  Como parte do tratamento, foi incentivada pela terapeuta buscar uma atividade nova e decidiu aprender a pedalar. Com a ajuda do marido Jessian e da irmã, descobriu os benefícios da atividade física pelas mãos de voluntárias da Escola Bike Anjo, que ensinam adultos e crianças a pedalarem. Dois anos depois, Silene já estava curada em 80% dos sintomas, mas ainda não se sentia segura para pedalar sozinha.

Jessian e Silene: bicicleta transformou a vida do casal 50+

A autonomia aconteceu durante a pandemia de Covid-19 quando o pai adoeceu do coração e ela precisou se deslocar diariamente e para o hospital, o que a ajudou a perder o medo e a gostar mais de usar a bicicleta. A partir disso, a vida mudou. Vendeu carro e moto e ainda motivou o marido e o filho a acompanhá-la. “Eu passei a usar direto. Com isso, o meu marido começou a se interessar na mecânica, para saber pelo menos o básico, de trocar um pneu. Até meu filho passou a usar bicicleta como meio de transporte”, comemora.

Hoje, curada do pânico e da ansiedade, relata uma vida saudável, sem diabetes, pressão alta e com baixo colesterol, ainda que precise controlar uma doença autoimune na tireoide. Ela explica ainda que o novo tipo de transporte resultou em outros ganhos para a família. O marido, portador de obesidade mórbida, foi submetido uma cirurgia bariátrica, sete anos atrás e além de ajudar a perder 70 quilos, a bicicleta é parte essencial no controle da pressão arterial. Com isso, ela estima uma economia de aproximadamente 300 reais por mês na farmácia.  “Hoje a gente tá gastando o dinheiro de remédio, com peça e pneu de bicicleta e ainda sobra para colocar numa previdência privada visando nossa aposentadoria”, revela.

Músculos fortes, recuperação rápida

Patrícia e Danúbio planejam cicloviagem sem data de retorno

A fonoaudióloga Patrícia de Renor, 64, de Natal (RN), também atribui sua boa forma física ao uso que faz da bicicleta, atividade de começou quando tinha 19 anos de idade. Como Silene, os exames clínicos estão em ordem devido às pedalas regulares para o trabalho e para a maioria dos deslocamentos. Praticante do cicloturismo com o companheiro Danúbio, 58, ela costuma fazer longas viagens na bicicleta. Em janeiro deste ano, no entanto, sofreu um acidente e fraturou joelho, mas a recuperação está sendo muito mais rápida do que seria caso fosse sedentária, já que as condições da musculatura obtidas com o ciclismo vem auxiliando significativamente no processo, ratificando o que disse o doutor Saldiva no início da reportagem.

“Eu não tomo nenhum tipo de medicamento. Às vezes sinto alguma dor na parte óssea por causa da idade, mas quando eu estou pedalando eu não sinto nada”. Patrícia diz que não vê a hora de voltar a pedalar, pois considera que a atividade é fundamental para a saúde mental.  “Pedalar deixa a gente com uma alegria muito grande de viver, de estar sempre vendo as coisas sem estar dentro de um ônibus ou de um carro. A gente vivencia tudo muito de perto”.

Economia de tempo e dinheiro

O educador musical Danúbio Gomes da Silva, 58, companheiro de Patrícia, além de relatar boas condições físicas e mentais devido ao uso intensivo da bicicleta, encontrou nela uma forma de economizar tempo e dinheiro. “Eu gastava com ônibus e táxi entre 15 e 20% do que eu ganhava no final do mês. Eu fui fazer os cálculos e percebi que os custos chegavam ao menos em R$ 600 por mês”. Salienta. Além disso, ele constatou que as viagens que faz para o trabalho ficaram mais rápidas. “Eu poderia estar nessa economia já muito mais tempo, se eu tivesse tido essa consciência de que a bicicleta poderia ser o meu principal meio de transporte”, lamenta. 

Para o futuro, Patrícia e Danúbio planejam fazer uma viagem longa de bicicleta, que deve começar em 2027 e não tem data de retorno. “Eu vou dar entrada na minha aposentadoria e como eu ainda tenho 10 meses de licença, vou usá-los enquanto eu aguardo a validação do pedido”, calcula.

Empreendedorismo e conexões sociais

Pati Vilas, jornalista aposentada de 66 anos é outra pessoa com a saúde em dia devido às pedaladas, o que feito regularmente há mais de 25 anos. “Era uma forma de começar meu dia melhor, de fazer exercício incorporando um novo meio de locomoção para mim. Hoje, eu uso só a bicicleta e Metrô e só pego o carro quando vou participar de feiras”, diz.

Para chegar na idade em que está sem nenhuma doença e sem precisar tomar qualquer remédio, Pati atribui tais condições à constância nas atividades físicas que praticou ao longo da vida adulta, o que reforça os resultados da pesquisas citadas nesta reportagem.  “Eu fazia caminhada, corrida, joguei tênis e pratiquei o mergulho, que era uma era uma paixão danada, mas é muito caro, coisa que a bicicleta não é”, avalia.

Pati Vilas (centro) em cicloviagem com amigas cicloativistas: saúde e sociabilidade

Além da manutenção da saúde, ela aponta outros benefícios que o ciclismo promove na sua vida. Quando parou de trabalhar com revistas, começou um negócio de bolsas e acessórios para bicicleta produzidos com lonas de caminhão usadas, a Gaia Alforges. A atividade ao mesmo tempo complementa sua renda e a aproxima de pessoas com o mesmo propósito de vida saudável. “Os congressos e feiras (do setor) são de uma riqueza e de um conhecimento que eu não alcançaria se eu não tivesse a bicicleta”, confessa.  

Para o futuro, planeja novas viagens e quer continuar pedalando sua bicicleta mecânica pelo maior tempo possível. Cinco anos atrás, acreditava que nesta idade atual, já estaria usando uma bicicleta elétrica, mas sente que o corpo ainda suporta mais uns anos pedalado pelas ladeiras da Mantiqueira, região montanhosa da cidade famosa pelas trilhas desafiadoras para ciclistas. Estima que ainda consegue ficar sem o auxílio mais cinco anos. “Já passaram cinco anos, quando pensei que aos 65 teria uma bicicleta elétrica, né? Agora, talvez com 70, e (depois) com 75. E assim a gente vai jogando”, calcula.

Foto da abertura: Pati Vilas, (de pé), com amigas cicloviajantes em Niterói (RJ). Arquivo Pessoal

Conteúdo extra: entrevistas na íntegra

A seguir, estão disponibilizadas no Canal Jornal Bicicleta no You Tube as integras das entrevistas com Silene, Patrícia, Danúbio e Pati Vilas, nas quais elas fornecem mais detalhes da influência do uso da bicicleta na saúde física e mental.


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