Por George Queiroz – Foi inaugurada no dia 30/01 em São Paulo a Ciclopassarela Jornalista Érika Sallum, via exclusiva para ciclistas e pedestres que atravessa o Rio Pinheiros entre os bairros Butantã e Pinheiros.

A obra se inspira em estruturas similares para ciclistas construídas em várias cidades da Europa, como a “Cykelslangen” de Copenhagen, na Dinamarca,inaugurada em 2014

A passarela, de pouco mais de 600 metros, custou 46 milhões de reais. Como ela está sendo inaugurada por um prefeito de direita, não houve questionamento sobre seu custo, ao contrário do enorme escrutínio jurídico e midiático sobre as ciclovias construídas na gestão de Fernando Haddad (PT)

Esta obra demorou exatos 30 anos para virar realidade. A Operação Urbana Consorciada Faria Lima foi gestada em 1994, na gestão do Prefeito Paulo Maluf. A licença ambiental do projeto malufista exigia pelo menos 3 ciclopassarelas atravessando o Rio Pinheiros.

Essas operações têm uma estrutura independente, com um grupo gestor formado por representantes da prefeitura e da sociedade civil, e se financia através dos CEPACs – o leilão de potencial de área construída para o mercado imobiliário. Essa venda garante uma arrecadação bilionária que é revertida em obras nas áreas delimitadas.

Por duas décadas as obras rodoviárias avançaram, mas a implantação de ciclovias só foi retomada na gestão Haddad. A partir da campanha “Adote uma Ponte” da Ciclocidade, a prefeitura começou a implantar ciclovias sobre as pontes sobre os Rio Pinheiros e Tietê – iniciativa inédita até 2014

A transposição das pontes sempre foi a principal reivindicação dos cicloativistas da periferia, como o criador do coletivo CicloZN Roberson Miguel (@biosbug) e do movimento Ciclovia Na Periferia. A primeira ponte que ganhou ciclovia foi a da Casa Verde, em 2014.

Durante a gestão de Fernando Haddad, 12 pontes ganharam o espaço para o ciclista, incluindo a Ponte Laguna, na Zona Sul, a primeira que teve uma espaçosa ciclovia incluída já em sua construção.

A Operação Faria Lima passou a planejar ciclovias em todas as pontes de sua área de atuação. A Ciclopassarela que hoje leva o nome da jornalista Erika Sallum (ex-colunista da Folha de São Paulo, falecida em 2021) teve seu projeto apresentado em 2016, último ano de gestão petista na cidade.

Os prefeitos que sucederam Haddad no cargo optaram por descontinuar a política de valorização da mobilidade ativa, com mínima ampliação da rede cicloviária. Somente em 2023 foi finalizada a ciclovia da Ponte Cidade Universitária, sob protestos de Associações de Moradores do Alto de Pinheiros.

O caso da Ponte do Jaguaré é grave. A transposição chegou a ser incluída em uma licitação de expansão da rede cicloviária em 2022, mas a prefeitura mudou de ideia, impedindo que a obra fosse finalizada para reservar o espaço dos ciclistas para uma futura Faixa Azul de Motocicletas.

No final de 2024, a construtora pediu que a ciclovia fosse retirada do contrato. Enquanto isso, a população da Favela Nova Jaguaré segue com dificuldades para atravessar a ponte para acessar o Parque Villa Lobos e a Linha 9 do Metrô, em uma calçada estreita e com sérios problemas de manutenção.

Em contraste, a Ciclopassarela Jornalista Érika Sallum é uma estrutura de primeiro mundo que interliga duas das regiões de maior IDH entre as 32 subprefeituras da cidade: Butantã e Pinheiros. Segundo dados de 2010, o IDH de Pinheiros é o maior de São Paulo e equivale ao de países como a França e a Itália.

É importante dizer que ciclopassarela não beneficiará somente os ciclistas de Butantã e Pinheiros, mas todos os ciclistas que pedalam vindos da Zona Oeste em direção às oportunidades de trabalho no centro expandido.

Muitas áreas periféricas da região ainda não ganharam conexão com o centro. Av. Corifeu de Azevedo Marques, cuja ciclofaixa inaugurada em 2023 ainda não chegou ao Rio Pequeno, o que poderia ter salvo a vida de Kauã Queiroz, jovem cicloentregador assassinado em 2022 voltando do trabalho

Com a inauguração da Ciclopassarela, Nunes entrega sua única proposta para os ciclistas incluída no plano de governo de sua campanha de reeleição em 2024. O plano de metas de seu primeiro mandato previa a implantação de 300km de novas ciclovias e ciclofaixas, mas ele entregou apenas 49km.


A qualidade “top” da ciclopassarela Érika Sallum contrasta com o desleixo da ciclofaixa implantada bem ali na rua Butantã. Esquecida na execução do projeto, a conexão foi incluída às pressas por pressão dos cicloativistas, e foi feita com uma estranha mescla de ciclofaixa e ciclorrota.

A Operação Faria Lima ainda tem mais uma ciclopassarela em sua lista de obras, a HIS Panorama – ainda na fase de projeto. A estrutura atenderá a comunidade do Jardim Panorama, com 275 famílias moradoras de uma área de risco que há 15 anos esperam as unidades habitacionais prometidas.

A segunda gestão de Ricardo Nunes começa com o tema da segurança viária em xeque. O ano de 2024 registrou um aumento recorde de mortes de trânsito, ultrapassando os mil óbitos pela primeira vez desde 2015, marca que tinha sido superada na gestão de Fernando Haddad através de medidas de acalmamento de tráfego. O último ano também registrou aumento histórico de mortes de ciclistas.
Ignorando as boas práticas mundiais no tema, Nunes desligou radares, diminuiu o efetivo de agentes da CET, descumpriu metas de implantação de ciclovias e corredores de ônibus e apostou na Faixa Azul para motos, que ao contrário da expectativa viu o número de mortes de motociclistas disparar.

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