A ineficiente política cicloviária da gestão do atual prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), os altos custos de operação na cidade e alguns problemas técnicos, deram uma rasteira nos planos de crescimento da Tembici Participações S.A., holding que controla a empresas que operam o sistema de bicicletas compartilhadas públicas, Bike Sampa em São Paulo e em outas cidades do Brasil e América Latina.
Com problemas para decolar o serviço de bicicletas elétricas na maior cidade do país, a startup apresentou prejuízo de R$ 89,21 milhões em 2023 – o terceiro resultado negativo consecutivo – e acumula perdas de R$ 457 milhões, de acordo com o último balanço publicado em 30/04/2024.
Como medida para reduzir despesas operacionais, a startup apoiada desde o início pelo Banco Itaú e, recentemente, por Uber e Ifood, não só retirou todas as bicicletas elétricas do sistema paulistano, como reduziu o alcance das unidades mecânicas, provocando frustração em usuários e usuárias.
O cicloativista Paulo Alves do coletivo Bike Zona Sul alertou em março deste ano para a redução do alcance do Bike Sampa, observando a retirada de estações nas regiões do Shopping Morumbi e Chácara Santo Antônio, bem como em Santana, na Zona Norte e Barra Funda. “Também foi percebido o realocamento (SIC) de estações na região Central, Berrini e Pinheiros, tornando o sistema cada vez menor”, reclamou.
A Tembici reconheceu a redução na oferta de bicicletas e culpou a falta de clientes. “Com base na demanda de utilização, a Tembici realizou uma reestruturação de suas estações em São Paulo. Infelizmente, reconhecemos que essa mudança pode impactar alguns usuários, mas o objetivo da iniciativa é garantir uma experiência mais eficiente e adequada”, desculpou-se.
Com isso, a empresa que tinha expectativa de chegar ao final de 2023 com 1.200 elétricas em operação somadas às 2.700 mecânicas, hoje mantém uma frota em circulação de aproximadamente 1.600 bikes em 241 estações- nenhuma elétrica – de acordo com o aplicativo Bike Sampa instalado no celular bem como como o site de contagem de bicicletas compartilhadas Bike Share Map

Eu prometo
Anunciada em 3 de junho de 2022, Dia Mundial da Bicicleta, pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) na Praça Roosevelt, junto com o presidente da Tembici, Tomás Martins e uma claque de assessores e vereadores, a inauguração do sistema de bicicletas elétricas do Bike Sampa teve muita pompa, publicidade e cobertura da grande imprensa.
Inicialmente, seriam disponibilizadas 500 unidades de pedal assistido, dessas em que o motor só gira se a pessoa pedalar. Elas se somariam às bicicletas mecânicas no compartilhamento das estações e, dessa maneira, facilitariam a expansão para outros bairros fora do centro expandido da capital.
Naquele manhã fria e cinzenta de outono, o prefeito exaltou os benefícios do sistema eletrificado para a cidade que chegaria à 1.200 bicicletas em 2023 e ajudaria na locomoção de pessoas idosas e obesas, populações que, segundo ele, vêm crescendo na capital. Em contrapartida, oferecia a promessa de construir, até o final de 2024, mais 300 quilômetros de nova infraestrutura cicloviária e ainda fazer a manutenção dos 700 quilômetros existentes.
No entanto, faltando pouco mais de seis meses para o fim do mandato, a Secretaria de Mobilidade e Transporte da gestão Ricardo Nunes só entregou 10% da meta de novas ciclovias (muitas delas com problemas de piso e sinalização), mal começou as reformas no sistema existente e, devido ao programa de asfaltamento das ruas, tem apagado ciclofaixas que demoram até seis meses para serem recolocadas. Em alguns casos, se não houver uma gritaria de ativistas, elas são entregues com diminuição na largura ou sem os olhos de gato, deixando ciclistas em apuros.
O desestímulo ao uso da bicicleta na cidade pode ser medido, inclusive, pelo resultado da última pesquisa de mobilidade da Rede Nossa São Paulo publicado em setembro de 2023. Mais da metade dos respondentes disseram não demonstrar qualquer interesse em mudar de hábito e passar a usar a bicicleta como transporte. Na mesma linha, 10% disseram que pretendem usar menos esse modo de transporte neste ano e só 16% pretendiam usar mais.
É reflexo da falta de políticas públicas para esse público, que deveria incluir obrigatoriamente um programa de redução da hostilidade do trânsito e de transformação na logística de modo que pedalar pela cidade não seja algo sofrível e perigosa para quem precisa cruzar rios em cima de pontes ou viadutos sem quaisquer condições de uma pedalagem segura.
Podia melhorar
A interrupção no aluguel das laranjinhas elétricas do Itaú, todavia, não pode ser colocada totalmente na conta da infraestrutura cicloviária gerida pelo secretário de Mobilidade Celso Barbosa e pelo gerente do plano cicloviário, Dawton Gaia. É justamente para suprir essa lacuna de ineficiência da rede de ciclovias que a bicicleta elétrica vem sendo oferecida por empresários como uma opção verde e sustentável para substituir o uso de automóvel em pequenas distâncias, com um pouco mais de conforto e segurança para vencer maiores distâncias sem sofrer com a baixa qualidade e insegurança que a atual rede de São Paulo possui.
As elétricas têm o poder de evitar que deslocamentos do centro à Barra Funda, ou da Vila Olímpia à Pinheiros possam ser realizados sem que o cliente chegue muito suado à outra ponta. Com um pedal assistido por um motor elétrico, é possível vencer as ladeiras e distâncias paulistanas e dar mais segurança para trafegar em vias sem ciclofaixas.
Em fevereiro de 2023, Tomás Martins aparece em uma entrevista ao jornal O Globo afirmando ter 3.000 bicicletas em 250 estações em operação na em São Paulo. Ao responder a uma pergunta sobre a qualidade da infraestrutura nas cidades, deu uma desconversada e disse que ela sempre “pode melhorar” ressaltando que, em São Paulo, o potencial do sistema seria de 20 mil bicicletas. Disse ainda, que empresa cresceria 40% naquele ano e que colocaria em conjunto com o Rio de Janeiro, mais 4.000 bicicletas elétricas.
Eu entrei em contato com a Tembici por duas vezes nos últimos dois meses para comentar o assunto, mas não responderam aos meus e-mails.
Protagonista do “bike sharing”
Além de não conseguir faturar o que esperava devido à interrupção na oferta de elétricas em São Paulo, a Tembici pode enfrentar um problema com a Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU) da cidade, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento que define onde e como se podem ser exibidas propagandas na cidade. Com o argumento de financiar a expansão do Bike Sampa, a Tembici conseguiu da CPPU uma permissão para aumentar de um para três a quantidade de “parceiros associados” no centro expandido, podendo chegar a quatro parceiros nas outras regiões.
As condições foram estabelecidas na resolução SMUL.ATECC.CPPU/001/2022, aprovada na reunião de 1º de junho de 2022. Essa resolução obriga, no entanto que as operadoras prestem contas bimestralmente aos conselheiros do CPPU.
Com a flexibilização da Lei Cidade Limpa, a Tembici estabeleceu rapidamente parcerias com o Uber e com o Ifood, mas a longevidade da prestação de contas para a CPPU durou pouco. Elas aconteceram por três vezes: duas em 2022 e uma em 2023 durante a 99ª Reunião Ordinaria do CPPU de 15 de fevereiro de 2023.
Nessa ocasião, a gerente de relações institucionais da Tembici, Marília Rollemberg, depois de fazer toda uma apresentação de ações da empresa em 2022, informou que naquele momento não havia novidades sobre a expansão das bicicletas elétricas prometidas no evento com o prefeito, mas que a empresa continuava comprometida em fazer da cidade uma “protagonista do bike sharing”.
Culpa do fornecedor
A culpa do atraso seria da “crise do supply chain” (cadeia de suprimentos) iniciada com a pandemia de Covid-19, ainda enfrentada pela fornecedora do sistema, a canadense PBSC, que não conseguia entregar os pedidos por falta de semicondutores e outros componentes.
A última informação que obtive sobre o assunto no Portal de Processos da Prefeitura é um ofício da Tembici para a presidente da CPPU, datado de 30 de março de 2023, na qual informa não ter nenhuma evolução na expansão para ser apresentada na reunião de abril, e que a expansão deveria ser retomada no final do semestre daquele ano.
“Assim, desde a apresentação do último relatório em sede da 99ª Reunião Ordinária, em 15 de fevereiro de 2023, ainda não houve novo encaminhamentos a serem publicados. Desta forma, solicita-se a extensão do período para realização de nova apresentação perante este eg. Colegiado”, solicitou Marilia Rollemberg.
Ao menos nos registros oficiais disponíveis na página do CPPU, porém, essa retomada da prestação de contas pela Tembici nunca aconteceu.
Batendo cabeça
Durante as últimas semanas, conversei com muita gente que é ligada de uma forma ou outra às atividades da empresa. Descobri, por exemplo, que a PSBC entregou o material faltante e que no ano passado chegou o Bike Sampa chegou a ter 1.000 bicicletas elétricas disponíveis em São Paulo, só que que não foram colocadas integralmente em operação. Desse total, umas 300 teriam sido aproveitadas para o empréstimo direto a entregadores do Ifood e o restante enviado para outras praças, como o Rio de Janeiro.
Um repositor de bicicletas da empresa também me disse que as últimas elétricas haviam sido removidas do sistema em março deste ano, pois “só davam problema” e tinham sido enviadas para o galpão de Extrema (MG).
Já uma fonte mais próxima resumiu a atual situação da startup em relação à São Paulo: “estão batendo cabeça”. Ela faz parte de um grupo de “pessoas chave” do cicloativismo de São Paulo que a empresa chamou para um bate-papo em que justificativa a retração dos serviços na cidade.
“Eles ainda não encontraram uma estratégia que sustente a operação aqui em São Paulo, onde o sistema não se banca devido aos altos custos de logística, viagens pendulares demais e uso preponderante por entregadores. Basicamente, as elétricas estavam exigindo muita manutenção e comprometendo até o esquema de manutenção das mecânicas”, revelou uma outra fonte que participou da reunião.
Série de prejuízos
O fato é que a expansão frustrada em São Paulo fez com a empresa apresentasse um resultado negativo pelo terceiro ano consecutivo, ainda que ele seja 28% menor do que o prejuízo de R$ 124,71 milhões do exercício de 2022. No balanço patrimonial, um sinal de alerta: a perdas acumuladas pela empresa totalizaram R$ 457 milhões.
Para Ricardo Raymundo, mestre em administração de empresas pela Facamp, o que fica mais evidente no balanço da Tembici é a dificuldade na geração de receita. “No curto prazo, a situação dela não é tão ruim e, pelos números, percebe-se que está cortando despesas. O problema é que ela está suportando a operação com empréstimos e o capital social está sendo devorado pelo prejuízo”, alerta. Com isso, o patrimônio líquido da empresa em 2023 ficou em R$ 15,6 milhões.
Salvo pelo BNDES
A Tembici tem se valido da condição de empresa “verde” para ter acesso a linhas de crédito voltadas para empresas ditas inovadoras da tecnologia limpa que possam oferecer no mercado financeiro os desejados créditos de carbono, títulos que empresas poluidoras compram para compensar a emissão de gases que provocam o efeito estufa.
E a Tembici está se especializando nisso. Além dos R$ 160 milhões emprestados junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social em que a metade vem do Fundo Clima, captou dinheiro com a emissão de debêntures privados no valor R$ 108,6 milhões para criar um fundo de investimento direitos creditórios (FIDC) com patrimônio líquido de R$ 100 milhões.
Além disso, recebeu em dezembro de 2023, a uma linha de crédito internacional de US$ 23 milhões (aproximadamente R$ 100 milhões) concedida por um consórcio formado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) com a Corporação para o Desenvolvimento Internacional (DFC) dos Estados Unidos e o Fundo Climático de Financiamento da Finlândia, segundo o último relatório de impacto da empresa.
E recentemente, voltou a receber mais dinheiro do BNDES. Em abril passado, o banco aprovou financiamento no valor de R$ 84,6 milhões para a Tembici investir no plano de inovação para os anos de 2024 a 2026.
“O investimento em mobilidade sustentável é uma das missões da Nova Indústria Brasil, do governo do presidente Lula. Nesta operação, além de promover a locomoção sem emissão de CO2, estamos financiando a inovação, fator fundamental para o desenvolvimento e estruturante para colocar o Brasil no caminho da neoindustrialização”, explicou em nota o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
Gringos otimistas
Uma notícia publicada na página do DFC sobre essa operação mostra, no entanto, um consórcio com uma visão bem otimista dos negócios da Tembici.
“Espera-se que o projeto aumente o número de usuários ativos da Tembici no Brasil, Colômbia, Chile e Argentina de 300 mil em 2023 para mais de 1 milhão até 2029. O número de viagens está projetado para mais que triplicar, para perto de 600 milhões até 2029. Isso reduzirá significativamente as emissões anuais de CO2, o equivalente à retirada de 15.000 automóveis de passageiros das estradas, aumentando o número de viagens de bicicleta nas cidades como alternativa ao carro. A Tembici ajudará a proteger a saúde dos residentes e o clima globalmente”, diz o comunicado.
Ocorre que a operação financeira aconteceu antes que Tembici tivesse revelado a demissão de mais de 70 pessoas (6% do quadro total), em fevereiro de 2024, informado a retração na operação com e-bikes na maior cidade da América Latina. Dentre os funcionários dispensados, por exemplo, estão incluídas todas as pessoas do departamento de planejamento urbano, uma área fundamental da empresa para avaliar e estruturar o sistema de bicicletas de acordo com a vocação de cada cidade, bem como de todos os operários da linha de montagem de Manaus, inaugurada um ano antes.
É nessa planta, hoje paralisada, que a empresa começou a fabricar suas próprias bicicletas elétricas, incluindo as estações, um sistema sem a presença do Itaú, e que já são utilizadas nas praças de Florianópolis (SC) e Belo Horizonte (MG), e que devem ser iniciadas em Balneário Camboriú (SC) ainda neste ano. E é lá em Manaus que o DFC espera que Tembici produza mais de 50 mil novas bicicletas entre os anos de 2023 e 2029, “apoiando o emprego local e impulsionando o desenvolvimento econômico sustentável da região amazônica”. Se vai dar certo ou não, sem a receita de São Paulo, só o tempo dirá.
*Observação
Texto corrigido às 12h24 de 25/05, pois havia colocado que a empresa teria apenas 241 bicicletas em operação em São Paulo. O erro foi induzido pela exibição do aplicativo Bike Sampa, que mostra esse número como sendo de bicicletas e não de estações. O número correto de bicicletas em operação pode ser visto em https://bikesharemap.com/saopaulo/#/12.388154055477951/-46.6533/-23.5743/
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