Para Avancini, o trabalho como atleta é instável e o patrocínio do Santander vai garantir continuidade

Henrique Avancini e a equipe de ciclistas de montanha que ele mantém serão patrocinados pelo Banco Santander. O apoio foi anunciado oficialmente em 24 de maio durante coletiva no edifício Altino Arantes, sede do Farol Santander (antigo prédio do Banespa no centro de São Paulo).

Ninguém falou de números, mas o projeto é de longo prazo. O banco vai estampar a camisa da Avancini Racing e gostaria de ver o atleta se tornar um herói olímpico, se possível já em Tóquio. As competições de MTB acontecem nos dias 26 (masculino) e 27 de julho (feminino). A meta, no entanto, é ter ao menos dois competidores no pódio da Olimpíada de 2028 em Paris, na França.

Igor Puga, diretor de marketing do Santander (centro): meta é ter dois brasileiros no pódio olímpico de ciclismo em 2028

O banco resolveu pegar a garupa de Avancini para se aproximar de um público que só tende a crescer. Há um boom em vendas de bicicletas no Brasil que poderia ser ainda maior caso não houvesse a falta de produto no mercado por conta da alta demanda mundial. A pandemia de Covid-19 provocou fechamento de academias de ginástica e com isso o ciclismo se tornou uma das únicas opções para se praticar exercícios sem se expor ao Novo Coronavírus e, em muitas cidades, a bicicleta e tornou a principal alternativa de transporte para trabalhadoras e trabalhadores evitarem o risco de infecção em trens e ônibus.

Para compensar o investimento, o Santander vai intensificar a oferta ações na rede de varejo para oferecer financiamento via crédito direto ao consumidor para compra de bikes com valores a partir de R$ 2,5 mil. O prazo será de até 48 meses com juros de 1,69% ao mês. O banco, em parceria com a seguradora Zurich também modelou um seguro de vida que garante cobertura para quem participa de provas amadoras, algo que era inédito no setor. A estratégia de marketing prevê anúncios em transmissões de TV de provas internacionais e nacionais tanto de MTB quanto de ciclismo de estrada nos canais a cabo ESPN e BandSports.

Santander é a principal apoiadora da ciclovia e do Parque Linear nas margens do Rio Pinheiros

O patrocínio ao atual campeão mundial de MTB é a segunda ação de marketing de peso do banco espanhol no ciclismo. A primeira foi se tornar a principal apoiadora da revitalização das margens do Rio Pinheiros, um projeto do governo estadual para despoluir o canal e transformar toda a margem do rio em uma atração turística, esportiva e social.

A primeira etapa, que modernizou a ciclovia que já existia na margem leste, tem atraído mais de 70 mil ciclistas por mês e o número pode dobrar após a conclusão das obras do parque linear que será instalado no outro lado do rio e vai integrar ambos os lados com passarelas.

Avancini respondeu à perguntas sobre a rotina de treinos, a preparação para a Olimpíada e o que ele espera alcançar com o apoio do banco. Leia a seguir.

ENTREVISTA HENRIQUE AVANCINI

Como é a sua rotina de treinos?

Henrique Avancini: O Mountain Bike é um esporte com muita variedade de situações diferentes, de competições e a preparação segue o mesmo conceito. É difícil pensarmos em rotina no Mountain Bike, os treinos são diários, às vezes com sessão única, às vezes com 4 seções. Mas também são importantes os períodos de descanso antes de entrar em uma rotina seguida de treinos.

Além do treino natural com a bike, você pratica alguma outra modalidade física que possa te ajudar? Por exemplo, musculação, yoga…

Avancini: O meu treinamento é composto por algumas sessões de corrida a pé; muitas sessões de treinos de força, como musculação; treinamentos de respiração; exercícios mentais cognitivos de reação e visualização; além da parte de recuperação e preparação motora, que são exercícios para o desenvolvimento biomecânico.

Onde são realizados os treinos nesse período em que ainda está no Brasil, antes da viagem?

Avancini: No período em que fico no Brasil faço minha preparação quase integralmente na cidade de Petrópolis (RJ), onde tenho algumas facilidades de preparação. Utilizo a estrutura física da equipe Henrique Avancini Racing e os meus percursos de treinamento.

Como é a rotina de alimentação, principalmente nesse período pré-Olimpíadas? Tem trabalho com nutricionista?

Avancini vai se preparar para a Olimpíada de Tóquio na Itália

Avancini: Sim, tenho acompanhamento com nutricionista e um consultor nutricional. Nós fazemos uma alimentação variada de acordo com cada momento do treinamento e no período de pré-competição isso também é alterado.

Devido às restrições de viagens (brasileiros barrados por causa da pandemia da Covid-19), você deixou de competir em algumas etapas. O que isso prejudica? Como foi a readaptação do planejamento para os Jogos Olímpicos?

Avancini: Esse começo de temporada foi mesmo um período difícil para mim. Principalmente porque demoramos muito a traçar um plano de preparação, tentamos viajar e fazer algumas competições e sempre tivemos que alterar esse planejamento. Isso acabou quebrando qualquer estratégia e fiquei com a pré-temporada comprometida. Mas agora me vejo em uma situação melhor, ainda num tempo bom para pensar e preparar a segunda parte do ano, que obviamente inclui os jogos olímpicos.

Como tem lidado com a expectativa de medalha, principalmente após vencer a Internazionali d’Italia, onde bateu o atual medalhista de ouro?

Avancini: Os jogos olímpicos sempre vêm carregados de uma expectativa externa enorme. As pessoas esperam pelo melhor resultado possível, mas é importante entender que na cabeça do atleta essa expectativa é algo anterior, que vem de forma permanente. O processo olímpico é longo e é importante você competir em alto nível durante todo o período e competições que antecedem. Mas Olimpíadas são sim deferentes, existe uma carga maior de análise mais detalhada do público e da mídia, um acompanhamento mais próximo. Tudo isso pode trazer coisas positivas e negativas, o importante é o atleta saber gerar isso para que traga motivação.

O que faz nas horas livres até para aliviar um pouco a expectativa e responsabilidade em representar o Brasil nas Olimpíada

Avancini: Eu gosto muito de música e de passar o tempo com a minha filha. Também procuro me dedicar a outros projetos, que na grande maioria das vezes são relacionados à bicicleta, mas não diretamente a mim. Tenho meu projeto social que é o Pedaling for a Reason; tenho a minha equipe, a Henrique Avancini Racing. Gosto de me dedicar a essas aventuras como uma forma de sempre manter a energia e a produtividade altas. É também uma forma de me manter realizado independente da minha performance esportiva.

Sabemos da ligação com a bicicleta desde a infância, a partir do seu pai, que também foi ciclista e tinha uma oficina de bikes. Sua família sempre apoiou a decisão em se tornar um ciclista profissional? Como foi quando decidiu trancar a faculdade de direito para se dedicar exclusivamente ao esporte?

Avancini: Eu tive uma criação muito pautada na instrução. Meus pais sempre me instruíram e apoiaram minhas decisões. Esse processo de se tornar um atleta profissional é muito longo, incerto e uma estrada cheia de percalços e altos e baixos. Sempre contei muito com o incentivo do meu pai no apoio da minha paixão, mas em relação a apoiar isso como um trabalho ou fonte de renda, sempre foi difícil para todos nós. Naquela época, o esporte não era desenvolvido suficientemente para que eu pudesse sonhar isso. Então tem sido uma jornada extensa e intensa, de crescimento pessoal e, sobretudo de desenvolvimento da modalidade como todo. Mas essa é a grande realização da minha carreira, enxergar hoje o esporte que amo tanto crescendo e ver também minha carreira crescer de forma proporcional.

Além do suíço Nino Schurter, quem ou quais são os principais adversários pela disputada da medalha de ouro?

Avancini: O Nino Shurter é o atual campeão olímpico e atleta mais experiente, é um dos maiores da história da modalidade. Além dele, temos uma geração de atletas um pouco mais jovem. O Mathieu van der Poel é o favorito da mídia; o inglês Tom Pidcock é um talento jovem e muito capaz; temos também os franceses Victor Coretszky e o Jordan Sarrou, que é o atual campeão mundial. Diria que esses são os nomes que chamarão a atenção nos jogos e podem estar no pódio.

Você se considera no melhor momento da carreira?

Avancini: Eu não gosto de me rotular e quero acreditar que minha melhor versão ainda é algo a ser descoberto. Claro que até aqui é o momento mais expressivo, ainda me sinto com a possibilidade de crescimento, desde que eu trabalhe da forma correta. Mas penso que ainda posso melhorar, unindo a minha experiência e ao mesmo tempo a explosão de um atleta ainda jovem.

Como será sua rotina no Japão, até a estreia nas Olimpíadas?

Avancini: Nós mudamos toda nossa programação para os jogos recentemente, devido às restrições severas no Japão. Vários países cancelaram o protocolo de preparação local por conta disso. Farei minha preparação final na Europa, em um local que já conheço. Viajo para o Japão uma semana antes da prova para já me aclimatar na Vila Olímpica. E essa rotina de treinos é mais simples até que em relação à Copa do Mundo, você tem menos estrutura física para trabalhar e com menos pessoas, então acaba sendo uma rotina simples, de no máximo três sessões diárias e sem esquecer da recuperação física.

Sabemos que muitas bikes, peças e acessórios continuam sendo importadas ao Brasil, acredita que com mais incentivo temos condições, também, em nos tornarmos cada vez mais produtores e ampliar o aspecto empreendedor ligado ao universo do ciclismo urbano e esportivo?

Avancini: Acredito que sim. O mercado da bicicleta no Brasil é aquecido e a indústria e o comércio têm números significativos no nosso País. Vejo como um reflexo natural a capacitação e o aumento de peças no Brasil, desde ocorra o incentivo para isso.

Você pode nos contar sobre a iniciativa do projeto AVA, em que consiste?

Avancini: Em 2015, eu tornei um sonho em realidade, que era a criação de uma equipe de atletas de auto rendimento. Meu objetivo inicial era dar a possibilidade à atletas jovens e que tinham demonstrado um potencial a se desenvolverem para o auto rendimento. Eu sei que esse último estágio de um atleta jovem para se tornar um atleta de elite demanda muita coisa, muito tempo e muito estudo. Então meu intuito sempre foi compartilhar estrutura, conhecimento e incentivo para esses jovens, para que pudessem se desenvolver de forma sólida. O projeto cresceu e foi ampliado em relação ao apoio aos atletas, estrutura física, recursos humanos e hoje temos a Henrique Avancini Racing, que hoje é a equipe referência do nosso País, em uma operação que não fica distante das equipes globais do Mountain Bike.

Como vê atualmente o ciclismo no Brasil? Há uma nova geração de atletas?

Avancini: Há uma nova geração de atletas no Brasil e a própria competição interna vem aumentando, e isso contribui muito para o crescimento de todos. A disputa interna precisa ter qualidade para quando chegarmos lá fora estarmos capacitados para todos os ambientes de disputa. Temos visto isso acontecer aos poucos com mais equipes e mais atletas vivendo profissionalmente.

Qual é a importância para um atleta, seja iniciante ou olímpico, em ter patrocínios de marcas dispostas a investir na modalidade, como o Santander?

Avancini: Se nós avaliarmos o atleta como uma função laboral, eu diria que é difícil encontrar um outro trabalho em que a continuidade seja tão importante. Falamos de uma escolha e estilo de vida completamente instável pelos desafios da natureza do esporte. Por isso é importante de alguma forma ter uma espécie de segurança e propósito comum em saber que uma marca caminha na mesma direção que você almeja. É uma garantia de que a sua dedicação é compartilhada por alguma instituição, isso dá uma força ao propósito do atleta muito mais profunda. Acho que é algo que faz sentido para as duas partes, atletas e marcas, pois compartilham valores em comum.

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