Ciclistas de estrada não têm lugar seguro para treinar em São Paulo. Renata Falzoni e Aliança Bike querem mudar isso

A Aliança Bike realizou hoje, 11 de maio, um seminário virtual para apresentar resultados de uma pesquisa realizada com ciclistas de estrada, esses que usam as bicicletas speed com guidão enrolado para baixo e para trás. É um nicho de mercado que gera um ticket alto nas lojas e fábricas, mas que nunca teve relevância na cidade de São Paulo, uma cidade extremamente carrocêntrica onde a sociedade acha que bicicleta é coisa de criança para pedalar no parque.

E quando a maior cidade do país não tem espaço seguro para uma categoria esportiva tão importante (enquanto escrevo aqui, o Giro da Itália ocupa a atenção de speedeiros de todo o mundo) chega-se ao cúmulo do Brasil estar ausente nas competições de ciclismo de estrada na Olimpíada de Tóquio, que começa daqui a 70 dias.

Os speedeiros precisam de locais próprios para treinar, que sejam extensos, pois precisam pedalar pelo menos 80 quilômetros para considerar isso um treino e andam em velocidades de 30/40 quilômetros por hora. Mas aqui em Sampa, perderam a Cidade Universitária e não conseguem apoio da Prefeitura para promover pedaladas seguras. Se existe um Pedal do Tio, que roda 50 km todos os sábados pela manhã, ou tem o rachão da bike é porque os organizadores exercitam a cidadania independentemente.

Mas sabem que essa insistência gera riscos altos. Pedalar nas marginas e avenidas de São Paulo é arriscado demais e quando se está a 40 por hora qualquer descuido pode levar ao chão e uma clavícula é quebrada.

Quem já passou por eles na ciclovia do Rio Pinheiros sabe do que falo. Quem corre na USP, também. Já fui quase atropelado na Cidade Universitária quando o local era apinhando de ciclistas de estrada. A reitoria então resolveu eliminar a bagunça. Pedalar esportivamente por lá ficou suspenso por um bom tempo e, recentemente, a universidade permitiu o uso controlado no comecinho da manha e restringiu acesso a algumas ruas.

A sociedade paulistana sempre foi assim. Se não pode acolher, expulsa. A proibição sempre foi a primeira opção. Vai atrapalhar fluxo de carros? Proíba pedestres e ciclistas. Vai atrapalhar a segurança de motoristas no sistema Anchieta-Imigrantes? Edita-se uma lei proibindo tudo que não seja veículo automotor. E la nave va!

Dessa forma, a entrada da cicloativista e bike-repórter Renata Falzoni na Câmara dos Vereadores de São Paulo deve ajudar o ciclismo de estrada paulistano a sacudir a poeira. O titular da única cadeira do Partido Verde na casa, Ricardo Trípoli, vai permitir que ela ocupe o gabinete no lugar dele por alguns períodos como forma de compensar a boa votação que ela levou para o partido no ano passado, com mais de 26 mil votos de ciclistas de todas as partes da cidade.

O trabalho começou na semana passada, quando foi empossada no Plenário. Vai ocupar o mandato por 31 um dias. Nesse tempo, vai usar a cadeira para acelerar propostas e debates. Um deles já foi protocolado: e permite que a CET feche ruas gratuitamente para ações esportivas e sociais que ocupem as pistas com pessoas e não com carros. Na prática vai baratear o custeio para se fazer eventos ao ar livre.

Outra intenção da vereadora é articular a criação na cidade de áreas de proteção ao ciclismo de competição a exemplo do que já acontece no Rio de Janeiro. Lá já são cinco locais onde a prefeitura fecha as ruas para que cidadãos e cidadãs possam pedalar esportivamente em segurança.

A pesquisa da Aliança foi justamente realizada para gerar dados que evidenciam a tomada de decisão para que a prefeitura de São Paulo abra, como exemplo, o Autódromo de Interlagos para a o ciclismo de estrada e também possa fechar uma pista da Marginal do Tietê.

Gisele Gasparetto, ciclista de alta performance que participou do seminário e é de São Paulo, desabafa. “A gente está sempre invadindo o local dos outros. Precisamos de um espaço nosso, que não me faça sentir uma intrusa”, pede.

E é fato. Ciclovias e ciclofaixas onde pessoas normais estão andando ou pedalando não são boas para quem treina longas distâncias em altas velocidades. E como a pandemia aumentou a quantidade de speedeiros novatos, os conflitos já estão acontecendo e lesões também. Mesmo na Ciclovia do Novo Rio Pinheiros, onde é possível pedalar ininterruptamente por 13 quilômetros, existe segurança. A via é obrigatoriamente compartilhada por quem se desloca de bike ou está a lazer.

A pesquisa conseguiu que 3.100 pessoas iniciassem a respostas do formulário, sendo que 2.600 chegaram ao fim dele. Tem um dado muito revelador sobre a demanda e o potencial de crescimento dessa modalidade: 37,9% dos respondentes começaram no esporte há menos de cinco anos, sendo que 11,5% chegou há no máximo um ano.

De modo que abrigar ciclistas de estrada e guiá-los para uma prática segura na capital vai inclusive diminuir custos com saúde pública. Se eles não atropelam e não são atropelados, não há gastos com resgate, pronto socorro e perda de produtividade.

Participantes do seminário de ciclismo de estrada da Aliança Bike: busca por lugares seguros para treinar

Foto de abertura: ciclistas treinam no Riacho Grande em São Bernardo do Campo – Rogério Viduedo – 12/10/2013

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