Ciclovia avenida Paulista faz 10 anos como resultado da luta por uma cidade melhor

Por George Queiroz e Rogério Viduedo – Do alto do prédio do Sesc ela compõe magistralmente a paisagem do espigão com o vermelho sangue que risca o horizonte de leste à oeste e ilustra as fotos de turistas de todos os cantos do mundo que se posicionam ali para carregar uma lembrança eterna da visita àquela cidade que nunca para. É justo dizer que a pista de bicicletas deixou a cena mais bonita que antes era só cinza da fumaça com a cor preta do asfalto.Mas, para além do cenário, a ciclovia da Avenida Paulista também deixou a cidade de quem pedala mais segura. E ela está fazendo aniversário. Sábado, 28 de junho de 2025, completam-se dez anos da inauguração dos seus quase dois quilômetros por onde passam aproximadamente 3 mil ciclistas por dia. Foi num domingo de sol em que gente veio de tudo que é canto para celebrar pedalando uma vitória da civilidade. Estavam lá o prefeito Fernando Haddad, o secretário de Transportes Jilmar Tatto e uma galera pra lá de empolgada com algo que nos aproximava do primeiro mundo. Afinal, naquela época a gente podia pensar que um chegaríamos ao nível de Amsterdã. 

Não chegamos e flertamos com uma real possibilidade dela sequer ser concluída. Ministério Público, jornalistas conservadores, políticos inimigos da ciência, classe média antipetista e demais integrantes do “quanto pior melhor” jogaram todas as fichas para que ela não saisse do papel, que fosse interrompida por ser uma obra eleitoreira, populista e outros adjetivos que usam para dizer que era preciso eliminar qualquer chance do prefeito petistas se reeleger e continuar fazendo o bem para a cidade. Não conseguiram. 

Após uma década, a Ciclovia da Paulista ainda é uma peça fundamental no quebra-cabeça da mobilidade sustentável paulistana. Sem ela, possivelmente não teríamos avançado para a relevância que o ativismo pelo uso da bicicleta na cidade foi alçado ao longo dos anos seguintes e que, no momento, esmorece. Por isso que celebrar esses dez anos de vida deveria atrair milhares de pessoas que participaram das bicicletadas para pressionar a procuradora da justiça que queria paralisar a obra alegando superfaturamento ou ainda a apropriação política pelo fato dela ser vermelha “petista” ou como os colegas jornalistas diziam, para acabar com o “ciclofaixismo”. 

Mas ela sobreviveu a tudo e a todos e aqui deixamos uma cronologia para que sempre nos lembremos das pessoas que perderam a vida ou que sofreram mutilações, dos processos judiciais, das fake news, do sujo jogo político e da brava resistência de cicloativistas. 

Massa Crítica

A saga da ciclovia da Avenida Paulista começa provavelmente em 2002, quando o movimento da bicicletada Massa Crítica, um fenômeno iniciado por ciclistas de São Francisco para ocupar as ruas exigindo segurança para pedalar, também começou a acontecer em São Paulo todas às últimas sexta-feiras de cada mês. O local escolhido para a concentração é onde está hoje a Praça do Ciclista, localizada no canteiro central próximo à esquina  com a rua da Consolação. Partiam de lá pedalando e gritando palavras de ordem: “mais amor, menos motor”; “menos gasolina, mais adrenalina”, percorrendo a avenida vagarosamente para chamar a atenção pelo direito que ciclistas têm de andar na rua sem ser atropeladas.

Ciclofaixa de lazer

Só em 2009 que usuários de bicicleta passaram a poder pedalar na avenida Paulista sem serem ameaçados de morte. O surgimento da Ciclofaixa de Lazer permitia uma descontração aos domingos. Fizeram um acordo com uma seguradora e ela pagava para colocarem cones nas faixas próximas do canteiro central para uma recreação despretensiosa. O projeto ainda é um grande sucesso e segue até hoje na cidade, apesar de não ter mais patrocínio de empresas, e vem sendo custeada pelos cofres municipais, pois o custo político de acabar com ela é bem grande. Mas não se enganem: o que está ruim pode sempre piorar por aqui.

Bicicleta branca

E sempre foi muito ruim pedalar por lá nos dias úteis. Coincidentemente, foi em janeiro de 2009 que a  cicloativista Márcia Prado foi atropelada e morta por um motorista de ônibus em frente onde é hoje o Shopping Pátio Paulista. O corpo dela ficou estirado no asfalto da avenida por aproximadamente quatro horas até que a polícia científica o liberasse para ser levado ao Instituto Médico Legal. Quem passar por ali pode olhar no jardim que separa a avenida da calçada, que uma bicicleta branca é mantida por companheiros como símbolo dessa luta contra a violência do trânsito.

Três anos depois: novo luto. Em fevereiro de 2012 a bióloga Juliana Dias foi a segunda cicloativista a perder a vida na Avenida Paulista simplesmente por querer se locomover de bicicleta. As circunstâncias foram similares à da morte da Márcia Prado e também próximas. A tragédia aconteceu há cem metros e hoje a bicicleta branca está presa à grade na esquina com a rua Pamplona, em frente à entrada da estação do Metrô. Em tem mais. Em 2014, o cicloentregador Marlon Moreira morreu na esquina com a rua Brigadeiro Luís Antônio, local que na época era um dos pontos com maior índice de atropelamentos de toda a cidade. 

Mutilação

O sinistro que mais chocou a opinião pública não foi uma morte, mas uma mutilação. Em março de 2013, o trabalhador David Silva pedalava ao trabalho num domingo cedinho quando foi atropelado pelo motorista Alex Siwek, que voltava bêbado de uma noitada. Na colisão, o braço do ciclista foi arrancado e ficou preso no carro de Alex, que fugiu imediatamente do local, deixando a vítima à beira da morte. O infrator disse à polícia que havia jogado o braço em um córrego na região do Ipiranga numa forma de tentar se livrar da prova do crime cometido. Já o ciclista David teve a vida salva por um enfermeiro que caminhava na avenida e prestou os socorros necessários.

O caso tornou-se emblemático. No dia seguinte, cicloativistas promoveram uma bicicletada de protesto. Debaixo de uma chuva torrencial, partiram da avenida Paulista em direção à casa do então prefeito da cidade, Fernando Haddad (PT), que havia se comprometido, de forma superficial, com a pauta durante a campanha eleitoral. Sem fugir da responsabilidade, Haddad marcou uma audiência com o grupo, na qual se comprometeu não apenas em construir a ciclovia na avenida Paulista, mas também a implantar 400 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas na cidade, tirando do papel projetos que hibernavam nas gavetas dos engenheiros da Companhia de Engenharia de Tráfego desde os anos 1980.

A revolução da mobilidade e antipetismo

A implantação das primeiras infraestruturas do novo plano cicloviário começou em 2014, ainda no centro expandido e a ciclofaixa da avenida Vergueiro teve um papel importante no acalmamento do tráfego local, uma vez que foi nessa avenida que liga a Vila Mariana à Liberdade onde havia sido implantada perigosa motofaixa. Em pouco mais de dois anos, Haddad não só cumpriu como ultrapassou a meta de 400 quilômetros de vias para ciclistas, um feito inédito no país que fez a cidade receber prêmios internacionais por suas iniciativas de humanização do espaço urbano.

Porém, como a cor das ciclovias devem ser  vermelhas de acordo o padrão definido pelo Conselho Nacional de Trânsito e de em alguns casos retirarem vagas de estacionamento começou a gerar descontentamento na parcela mais privilegiada da cidade e acabou sendo usado como munição antipetista o que acontecia paralelamente à turbulência da operação Lava Jato e da acirrada eleição presidencial entre a presidenta Dilma Rousseff (PT) com o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB). Naquela época, (e ainda hoje) usavam tudo que era possível contra o PT. Colunistas contrários ao partido como Reinaldo Azevedo (Revista Veja) e Marco Antônio Villa (Rádio Jovem Pan) surfavam a onda e não poupavam críticas às ciclovias e ao “ciclofaixismo” do Haddad.

Judicialização com factóides

Foi nessas circunstâncias em que a construção da ciclovia da Paulista começou, no início de 2015, quando a oposição ao Partido dos Trabalhadores se tornava cada dia mais visceral, claramente visando a consolidação do golpe na presidenta reeleita Dilma Rousseff. As críticas a Fernando Haddad e às ciclovias se somavam às denúncias e prisões da Operação Lava Jato, que ganhava força em Curitiba pela atuação conjunta do juiz federal e hoje senador Sérgio Moro e do procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol, que hoje é um desempregado e inelegível.

Comandada pelo PSDB (que hoje respira por aparelhos), a mesma oposição que não tinha aceitado a vitória legítima de Dilma Rousseff, também não concordou com o projeto da ciclovia na Avenida Paulista. Encabeçados pelo vereador Andrea Matarazzo, entraram com uma representação no Condephaat, órgão responsável pelo patrimônio histórico municipal, pedindo o cancelamento do projeto alegando que a ciclovia alterava a paisagem de pontos históricos como o Museu de Arte de São Paulo (Masp). A proposição foi rejeitada.

Já em em março de 2015, com base em denúncias falsas publicadas na mídia, a promotora de justiça Camila Mansour Magalhães conseguiu na justiça estadual a paralisação das obras da ciclovia da Avenida Paulista e de todo o plano cicloviário da cidade. A comunidade cicloativista reagiu imediatamente e foi às ruas em defesa da ciclovia promovendo uma enorme bicicletada com mais de sete mil ciclistas, ocupando toda a avenida. A pressão popular ajudou contribuiu para que o Tribunal de Justiça derrubasse a medida as obras foram retomadas.

Inauguração atraiu pessoas de outros estados, como o artista Plá, de Curitiba

Vitória da civilidade

Até o tempo contribuiu para a inauguração. Era domingo com sol e temperatura agradável apesar do inverno. O dia 28 de junho de 2015 ainda está na mente de muita gente. A inauguração mereceu uma enorme festa dos cicloativistas. Em virtude da enorme quantidade de bicicletas presentes, a CET proibiu a circulação de veículos automotores, o que acabou se tornando o embrião para o programa Paulista Aberta, que até hoje promove atrai milhares de pessoas para curtir o domingo na avenida sem a presença de carros ou ônibus, todos os domingos. O prefeito Fernando Haddad esteve na inauguração, pedalou e foi muito bem recebido pelos ciclistas. Mas também ouviu protestos de militantes de extrema-direita, que a cada dia ficavam mais agressivos Naquela época, extremistas costumavam agredir fisicamente pessoas que usavam camisas vermelhas.

O sucesso das medidas só deixou os opositores antipetistas mais furiosos e inconformados. Na manhã seguinte, a ciclovia teve trechos pintados de tinta azul como forma de pontuarem a discordância com o concreto pigmentado vermelho. Nas rádios, os chauvinistas de plantão vomitavam mentiras sobre os custos da obra, que eram prontamente rebatidos. Em um verdadeira guerra judicial (lawfare) contra gestão, Haddad foi diversas vezes investigado e indiciado por supostos desvios na implantação das ciclovias. O prefeito foi absolvido em todos os casos por absoluta falta de provas, mas sua imagem pública foi manchada e em 2016 ele não conseguiu se reeleger. Paralelamente, a presidenta Dilma Rousseff era removida da Presidência da República por alegadas “pedaladas fiscais”, que posteriormente também restaram provadas como peça de ficção.

Mais ciclistas na cidade

Apesar de ter nascido em pleno fogo cruzado político entre o PT e o PSDB, a ciclovia da avenida Paulista foi um sucesso imediato. Os números de ciclistas aumentavam exponencialmente a cada mês, visto que naquele momento a cidade possuía uma política pública de incentivo ao uso da bicicleta. Além de infraestrutura, a prefeitura incentivava criação de bicicletários, reduzia velocidade de carros, estabelecia parcerias com órgãos internacionais para ajudarem na modernização da mobilidade.  Ao mesmo tempo o programa Paulista Aberta era transformado em Ruas Abertas e levado para outras avenidas da cidade, sobretudo na periferia.

Ciclovia ao lado do Masp. Incorporada ao cenário da cidade

Mas o que era doce acabou. Haddad não consegiu ser reeleito e os programa humanitários que ele desenvolveu ao longo dos quatro anos em muitos casos foram interrompidos. O prefeito seguinte, o empresário João Dória, por exemplo acabou com o Ruas Abertas e manteve apenas o fechamento dominical da Paulista. Ele também colocou uma pedra na evolução do Plano Cicloviário criando uma lei para amarrar qualquer nova ciclovia à audiências públicas com a população. Se pudesse, talvez atenderia o ex-prefeito José Serra, que chegou a dizer que o fechamento da avenida para carros aos domingos era motivo de tristeza para a população, mas o custo político da medida seria alto e nenhum dos prefeitos que vieram depois tiveram coragem de seguir nessa idéia.

Os próximos dez anos

Tudo é incerto na cidade de São Paulo visto que a extrema-direita mantém tentáculos potentes dentro da administração municipal. E o futuro da ciclovia está extremamente ligado a isso. Mesmo que ela permaneça lá, pode acontecer de outras infraestruturas desaparecerem. Sem as vias que se conectam a ela, pode virar um elefante branco. Existe muita pressão de especialistas de trânsito e de líderes de motociclistas para que sejam extintas as ciclofaixas da Consolação e da Rebouças, para acomodar faixas de motos. Tal pressão também acontece para que menos ciclofaixas sejam criadas na cidade. Já era para termos 1.200 quilômetros em atividade se o Plano de Mobilidade fosse seguido. Não temos nem 800 e as conexões em pontes e viadutos não saem do papel, faendo com que a periferia continue a ter mais dificuldade de ter acesso à cidade por meio de bicicletas. 

Parabéns para a ciclovia da Avenida Paulista. A luta cicloativista continua.

Fontes:

https://vejasp.abril.com.br/cidades/ciclovia-avenida-paulista-numero-ciclistas/

https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/10/apos-morte-em-acidente-ciclistas-protestam-na-avenida-paulista-em-sp.html

https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/10/apos-morte-em-acidente-ciclistas-protestam-na-avenida-paulista-em-sp.html

https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/10/morre-ciclista-atropelado-por-onibus-na-avenida-paulista.html

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/03/02/ciclista-morta-na-avenida-paulista-era-biologa-e-trabalhava-no-hospital-sirio-libanes.htm

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/03/02/ciclista-morta-na-avenida-paulista-era-biologa-e-trabalhava-no-hospital-sirio-libanes.htm

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1501200921.htm

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https://www.estadao.com.br/brasil/ciclista-morre-ao-ser-atropelada-por-onibus-na-paulista/?srsltid=AfmBOorG9dKeNIqBF0xvjtnc8xm0Js24HHtT4POFaqnR7s7v8D0lUW8s

https://veja.abril.com.br/brasil/onibus-atropela-e-mata-ciclista-na-avenida-paulista/

https://prefeitura.sp.gov.br/web/pirituba_jaragua/w/noticias/58535

https://vejasp.abril.com.br/cidades/justica-paralisa-implantacao-ciclovias/

https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/03/ciclistas-protestam-contra-suspensao-de-obras-de-ciclovias-em-sao-paulo.html

https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/haddad-e-o-taliban-de-bicicleta-e-o-estado-islamico-sobre-duas-rodas/

https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/ciclofaixismo-de-haddad-vira-ciclofascismo-e-expulsa-da-via-publica-quem-nao-reza-pela-carteirinha-do-pt-ou-haddad-e-o-pt-na-sua-fase-esclerotica/

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/09/11/psdb-quer-vetar-ciclovia-de-haddad-na-avenida-paulista.htm

https://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/06/(none)


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