Para ser eficiente, o SUS dos transportes precisa incluir a bicicleta, a genuína Tarifa Zero

Crédito da foto: Metrofor - Divulgação

Fico entusiasmado ao perceber que a adesão do presidente Lula ao projeto de Tarifa Zero para os transportes públicos, pode ser uma grande oportunidade para dar maior visibilidade ao Programa Bicicleta Brasil (PBB) que é gerido timidamente pela Secretaria de Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades. Nessa grande narrativa que embasa os argumentos de engenheiros, políticos e sociólogos defensores da Proposta de Emenda Constitucional 25/2023 que cria o Sistema Único de Mobilidade (SUM) e deve reordenar a gestão dos transportes urbanos das cidades concedendo a gratuidade da passagem de ônibus, metrô, trem e barco para a população, a inclusão da bicicleta soa para mim como pedra fundamental da eficiência desse novo sistema, já que, ao fazer as contas, quanto mais pessoas andando de bicicleta mais espaço sobra nos vagões e busões.

Aliás, como eu disse ao público presente no lançamento do livro Tarifa Zero, Embarque Nessa Ideia, do deputado federal Jilmar Tatto (PT), ocorrida no final do ano passado no Armazém do Campo, em São Paulo (SP), o transporte por bicicleta é genuinamente “0800”, um jargão que se refere à gratuidade de alguma coisa. É zero gasto com passagem e zero gasto com combustível fóssil. 

E vai mais além. Agora é comum o debate do free flow, termo para designar a cobrança de pedágio por quilômetros com chips e sensores instalados em carros e rodovias que dispensam praças de pedágio. Nessa discussão, só digo que a bicicleta é naturalmente fluida e, exceto se cair uma ponte ou a rua ficar alagada, vai ser sempre mais eficiente e mais rápida do que carros e motos em percursos de até três quilômetros. 

Isso sem falar da saúde que o uso habitual da bicicleta promove para quem a usa por pelo menos 30 minutos por semana. Uma pesquisa realizada com 45 mil dinamarqueses de idades entre 50 e 65 anos mostrou que o grupo que pedalava com frequência para o trabalho registrou entre 11% e 18% menos ataques cardíacos em um período de 20 anos de análise. E eu falo por mim mesmo. Aos 56 anos, minha pressão média é de 11/8 com batimentos cardíacos em torno de 80 por minuto, bem como índices de glicemia e colesterol dentro da normalidade. É muito benéfico, e eu sou apenas um bicicleteiro corriqueiro que só evita ultraprocessados e tenta ter uma alimentação mais natural dentro das possibilidades econômicas. 

Então, por que os estudos, pesquisas e material publicitário que vendem o SUS dos transportes e a Tarifa Zero  não incluem a bicicleta nesse reordenação do sistema de transportes urbanos de pessoas das cidades se ela deveria ser a principal opção para trabalhadoras e trabalhadoras saírem de casa e dirigirem-se para os pontos de ônibus e estações de trem, metrô e barcas? São vários os motivos e talvez o principal deles é a falta de incidência política no âmbito da Frente Parlamentar da Tarifa Zero que reúne parlamentares na Câmara dos Deputados favoráveis à ideia do SUM. As Ongs, cicloativistas e representantes do mercado e indústria deveriam melhorar a “incidência” e buzinar nas cabeças de deputados e deputadas os exemplos de políticas públicas de sucesso no incentivo do uso da bicicleta em cidades como Fortaleza (CE), Niterói e Maricá (RJ), que apostam vigorosamente na integração intermodal do transporte público com o transporte ativo bancando sistemas de bicicletas compartilhadas que ligam os bairros aos terminais de passageiros. 

Também vejo que faltam mais mulheres debatendo o tema. Essa área é muito masculinizada com a turma dos motoristas e engenheiros e precisa de mais olhar feminino, já que são elas que mais usam transporte público e as que mais têm aderido à agilidade (e risco) do mototaxi  pela grande relação do custo x benefício em que pedir uma moto por aplicativo custa o mesmo preço da passagem do ônibus e chega-se ao destino mais rápido e sem risco de assalto.

O assunto é denso e não podemos deixar escapar essa oportunidade. O pacto social que envolve a adoção dessa nova forma de pensar o transporte precisa incluir a bicicleta e também a caminhada, pois antes de mais nada, somos pedestres e precisamos de calçadas boas e acessíveis. Por isso, será o meu principal tema aqui neste espaço ao longo do ano. Se você quiser contribuir, escreva para o email jornalbicicleta (arroba) gmail.com ou deixe uma mensagem aqui pelo site. 

Crédito da foto: Divulgação Metrofor


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