Mostrei para a amiga arquiteta e urbanista a foto que ilustra este artigo e ela respondeu com afiada ironia:
– Agora só falta colocarem uma daquelas placas mandando ciclistas passarem desmontadas!
A imagem mostra mais uma presepada realizada pela gestão Ricardo Nunes em relação ao abandonado “plano cicloviário” e se refere a um novo trecho de ciclovia de aproximadamente 20 metros instalada numa apertada calçada da avenida Escola Politécnica ao lado da usina do Cimento Cortesia, altura do número 2651, no bairro do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo.
O aviso serviria para alertar a ciclista sobre o óbvio: com aquele monte de postes, quem vem de bicicleta vai ter que parar mesmo e andar pela ponta dos pés já que naquelas medidas que sobraram não há como passar em movimento. É pura física.
E nem precisava consultar especialistas para ter certeza de que a implantação está fora das normas e do bom senso. No Manual de Desenho Urbano e Obras Viárias da Prefeitura de São Paulo, por exemplo, consta que a largura mínima em uma ciclovia para uma bicicleta passar em segurança – o espaço dinâmico – é de um metro e meio. Eu passei alí e só consegui avançar parado, descendo do selim, colocando os pés no chão, já que o guidão de 60 centímetros da bici ficou extremamente apertado.
Perguntei para um bicicleteiro que passava por alí.
– Eu geralmente nem entro. É muito apertado!
Tal como outros, ele não perde tempo desviando dos pirulitos, que é como os técnicos da CET chamam esses postes nas calçadas. Prefere dar uma desviada pelo asfalto da avenida, aproveitando que os carros estão parados no semáforo. Logo à frente, a ciclovia recomeça por cima do próximo trecho de calçada.
Pintar ciclovias em calçadas com a visível interferência de postes e árvores que reduzem o espaço para a passagem de bicicletas e colocam pessoas em risco, não é novidade nessa administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB). É dessa lavra as ciclovias com problema semelhante nas avenidas Queiroz Filho, (Lapa), doutor Abraão Ribeiro (Barra Funda), Águia de Haia (Itaquera), educador Paulo Freire (Pq Novo Mundo) e no cruzamento da Ibirapuera com República do Líbano/Indianópolis, talvez o único local onde os postes foram rearranjados depois que eu escrevi uma reportagem publicada no Estadão Mobilidade e o Bike Zona Sul e Vá de Bike publicaram vídeos. Mas as denúncias só funcionaram porque estão em bairro de gente com um pouco mais de dinheiro e chamam a atenção da grande mídia pois, quando é na periferia, o problema cai no esquecimento.

Me chama a atenção que os engenheiros das empresas que formam o Consórcio Manutenção de Ciclos SP, (a M4 Construções e a Sinalisa) e as pessoas que fiscalizam o contrato pelo lado da prefeitura não conheçam a literatura (ou se fazem de sonsas) sobre implantação de ciclovias e tenham pintado essa novo trecho sem sequer ter um projeto executivo. E chama mais atenção que eles tenham feito uma implantação fora do escopo do serviço, pois o contrato que assinaram com a SMT foi para fazer manutenção em estruturas existentes e alí naquele local não havia ciclovia. O que aconteceu foi uma implantação à revelia do projeto original.
Vale retomar a história da implantação dessa ciclovia de aproximadamente quatro quilômetros que remonta a 2014, durante a gestão do prefeito Fernando Haddad (PT). Naquela época, esse problema dos pirulitos na calçada esquina com a Estrada das Cachoeiras já existia. Os planejadores então sugeriram colocar a passagem de bicicletas na faixa de carros como uma clicofaixa e seguir assim até a avenida a Corifeu de Azevedo marques.
A sugestão, no entanto, foi fortemente criticada pelo então coordenador operacional da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), responsável pelo trânsito da região. Argumentava que instalar ciclofaixas na avenida seria perigoso devido ao tráfego de caminhões pesados e também comprometeria a “fluidez” na avenida.
Jilmar Tatto, o secretário de Mobilidade da época, teve que intervir e pediu uma alternativa para a equipe de planejamento cicloviário e jogaram a passagem de ciclistas para as calçadas da avenida e onde não tinha espaço, criaram desvios que ninguém usa. Nese caso em questão, fizxeram um desvio pela rua de trás aumentando o trajeto em 100 metros e, como acontece em casos assim, o ciclista acaba indo pela avenida mesmo.
Tato tinha a intenção de avaliar a resposta dos usuários e fazer alterações posteriores na estrutura, mas, com a enxurrada de críticas contra o projeto cicloviário da administração petista, o assunto ficou congelado e a estrutura permaneceu inalterada até começar essa manutenção em meados de 2025.
A gestão Ricardo Nunes reconheceu o problema e mandou uma nota dizendo que o trecho será readequado.
“As obras de manutenção e recuperação do trecho 2 da Ciclovia da Av. Escola Politécnica foram executadas pelo Consórcio Manutenção de Ciclos, referente ao contrato 22/smt/2023. O trecho da Escola Politécnica, que vai da Rodovia Raposo Tavares à Avenida Corifeu de Azevedo Marques, com cerca de quatro quilômetros de extensão, tem investimento previsto de R$ 2,4 milhões. Esse valor só será consolidado após a medição e vistoria dos serviços, que incluem recuperação de pavimento, concretagem de calçada, implantação de sinalização horizontal e de dispositivos de sinalização e orientação viária, entre outros.”
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